Aqui na rua de casa, e nas adjacências, há
incontáveis academias para o culto ao corpo. Me incomoda? Nem um pouco, sério!
Sou pela liberdade de cultos. O pessoal aqui da vila lota esses espaços. A
quaisquer horas do dia ou da noite, da madrugada, você vai topar com esse
público que usa aquelas roupas, aquelas garrafas, viseiras, vermelhos, calorentos,
com o branco dos olhos bem brancos, nas calçadas do bairro. Uma gente muito
bonita.
A crônica é sobre um comportamento crônico de
alguns deles, de muitos deles, dos cultivadores de beleza física. É pela saúde,
alguém vai gritar. A saúde é bela também, e física também. Talvez eu volte a
este detalhe, aguarde!
Em 2017, uma rede sueca de farmácias, a Apotek Hjärtat
– pronuncia-se “apotiék iárta”, cuja tradução aproximada é “Farmácia Coração” –
teve uma ideia publicitária para se autopromover dentro da cultura desperta:
constranger os tabagistas que fumam pelas ruas da cidade. Um painel de vídeo,
colocado próximo aos pontos de ônibus, trazia uma personagem que, ao detectar a
aproximação de um fumante, começava a tossir fortemente. A tossida não apontava
para a futura, ou presente, condição de saúde do fumador, não, o
constrangimento consistia no fato de ele e sua fumaceira incomodarem os
passantes, passivas vítimas de sua irresponsabilidade.
Em 1995, o prefeito da cidade de São Paulo,
Paulo Maluf, implementou leis restritivas aos fumantes paulistanos. Depois, o
Brasil aderiu. Arguido no programa televisivo Roda Viva, disse que se
preocupava com a saúde pública. É um expediente que sempre funciona. Em nome de
uma virtude (proteger as criancinhas, proteger a saúde etc.), atende-se a um
programa de poder, normalmente, econômico e político. Durante a década de 1980,
nos Estados Unidos, claro, uma série de pesquisas apontavam para o prejuízo
econômico que os fumantes provocavam nas empresas, pois faltavam mais que os
outros funcionários, paravam de trabalhar durante o expediente para ir dar uma
pitada etc. Pega mal para a burguesia industrial proibir os funcionários de
fumar, alegando que querem ganhar mais dinheiro, explorar mais, oprimir mais.
Pega muito mal. Então, a publicidade entra em ação, publicidade é o braço
armado do capitalismo. Apelaram para a saúde pública, para a saúde do próprio
trabalhador, especialmente, das vítimas passivas – essa parte da estratégia é
das mais importantes, criar inimigos dos fumantes entre a própria classe
trabalhadora.
Quem vai objetar uma preocupação tão nobre com
a saúde?
A Alemanha da década de 1930 foi a pioneira no
combate ao tabagismo. Médicos nazistas foram os primeiros a apontar para o
câncer de pulmão.
Sim, a Alemanha estava sob o regime de Hitler.
O maluco tinha uma pendenga pessoal com o tabaco e, claro, a saúde do povo
ariano era fundamental. As plaquinhas de “proibido fumar” abundavam pela
Alemanha nazista antes que qualquer outro país pensasse nisso. Linda e
inquestionável preocupação com a saúde. Lembro-me de ter contado essa história
a um amigo, que nem era meu amigo, era alguém para quem eu precisava fingir amistosidade
para manter boas relações trabalhistas. Meu amigo, bombado, com o branco dos
olhos mais brancos que já vi, com a cheiqueira na mão, fez uma cara de que eu nunca
mais vou me esquecer e disse: “então ele também fez coisas boas!” Não era meu
amigo, repito, na verdade, insisto!
Juro que isso não foi um passarinho! “Passarinho”
é quando um cronista inventa ou enfeita um detalhe da história para dar mais
graça ou ênfase ao texto. A famosa mentirinha. Não foi passarinho, o meu amigo
era mesmo cultor de braços-pernas-abdômen-peito-costas, estava mesmo com uma
cheiqueira em mãos e achou mesmo que o líder nazi fizera uma coisa boa na vida.
Mesmo!
Voltemos à minha rua de 2025!
A campanha publicitária, 2017, de autopromoção
da farmácia sueca, aquela do constrangimento, chegou à minha rua, creio que no
ano passado, talvez um pouco antes, mas agora está mais presente e mais
insidiosa (insídia diz respeito a ardis). Demorou, mas chegou. Por aqui, até o
descolonialismo é importado. Se caminho fumando pelas calçadas e topo com
aquelas pessoas bonitas, vermelhas, calorentas, com aquelas roupas e garrafas,
com aquela esclera mais alva do que as asas de um arcanjo, elas tossem! Se
estão em grupo, tossem em grupo.
Não cederei ao contra-argumento fácil do
“tussam para os automóveis, tussam para os caminhões, tussam para as
motocicletas, tussam com a sueca Greta para o minério de ferro do supino!”
Tampouco me constranjo. Altercar com esse povo é ceder às estratégias, antes
nazis, agora neoliberais. São vítimas passivas, mas não da minha fumaça, são
vítimas passivas do neoliberalismo. Do neoliberalismo que nos adoece a todos.
Como fala o Safatle mesmo? “O neoliberalismo é uma forma de gestão do
sofrimento psíquico.”, acho que é isso. O historiador Marc Ferro já dissertava
sobre isso à maneira dele: “A doença é então um desafio disputado pela ordem
médica, pelas empresas, pelo Estado e pela ordem jurídica. Fonte de proveito e
de poder, a doença torna-se um personagem social que alarga o seu campo.”
Confesso que, para essa citação, tive de recorrer ao livro ali na minha
estante, de memória não deu.
Eu não cedo. Há um livro de Gilles Deleuze,
“Lógica do sentido”, que acrescenta a este meu texto um espírito: “... et que
plutôt la mort que lá santé qu’on nous propose.” “... antes a morte do que a
saúde que nos propõem.” Artaud, Artaud, Artaud! Lógico que não defendo a morte,
lógico que não quero morrer, lógico que é um emblema de resistência. Afinal,
morto, eu nem fumaria...
Elas cedem. Cedem, mas inconscientemente, o que
sentem é heroísmo participativo, atuante, em nome da salvação da raça, da
espécie, em nome da beleza, da paz, do respeito, da saúde, da limpeza, da pureza.
Parece até que descrevi um soldadinho fascista, mas é só o povo das academias
aqui da rua.
Claro que nada disso é uma ode ao tabagismo,
longe disso. Aliás, há anos que não consigo fazer odes a nada, nem subir
escadas. Como me diz o meu filho: “Você precisa fazer academia!”
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