Vocês já perceberam que eu gosto de arroz-feijão-ovo-salada.
Escutem essa:
Hoje, umas oito pessoas sentaram-se à mesa quase ao lado da minha. Funcionárias de alguma loja ou escritório da região – algumas vestiam calças brancas... devem ser da loja que banha e tosa animais domésticos, nova aqui na rua.
O bar do Marquinho é um bar, os talheres, a louçaria, as mesas e cadeiras e o ar que pouco circula são dos anos oitenta. Os jovens de mente colonizada dirão que é “roots” ou “raiz”, mas não é nada disso. É um bar e é do Marquinho. Às vezes, um bar é só um bar.
Os frequentadores: eu, taxistas, funcionários da Enel, da Claro, da Vivo, da Sabesp, da Comgás, porteiros, passantes etc.
Os mais velhos disputam um lugar onde se possa sentar de costas para a parede e de frente para a porta. Pura sabedoria. Não vai acontecer nada, mas é importante mostrar sabedoria. A melhor mesa é aquela junto à janela e atrás das duas geladeiras, quem se senta ali é o Seu Francisco do táxi, ali ele é o último a ser divisado por quem adentra e bastaria um pulinho, zás, já estaria na calçada.
É preciso saber sentar-se: senta-se, olha-se vagarosamente ao redor para todos com cara de mau, balança-se levemente a cabeça, um movimento vertical quase imperceptível, quando reconhecer um rosto, depois se retoma a varredura por mais uns dez segundos.
Marquinho está ali no canto, com o pano de prato no ombro desde 1986, olhando tudo com cara de Ernest Borgnine. Ele espera acabar o ritual, vem até à mesa e diz “Você quer o quê?”
No bar do Marquinho, ninguém fala muito acima dos 40 decibéis – se você não sabe, 30 decibéis é o recomendado para conversação em bibliotecas, 50 decibéis é a conversação normal.
As pessoas que se sentaram à mesa ao lado destoavam a 60 ou até 70 decibéis. Uma delas ria a 80 e dava um grito agudo a 100 antes de iniciar a gargalhada.
Parei de comer, encarei Marquinho. Marquinho olhou para Seu Francisco do táxi. Seu Francisco cutucou Seu Pedro porteiro. Dona Soraya do edifício Dallas espumou. Todos encaramos Marquinho, enviamos o olhar de “Nunca mais almoçaremos aqui!” Marquinho nos enviou o olhar de “Vou fechar este bar, vou voltar pra Saint Louis!” – Saint Louis é o edifício em que ele tem um apartamento, fica em Peruíbe.
É agora que as coisas se dão:
Marquinho veio atender à mesa estrepitosa. Era aquele povo que não sabe o que quer, um tempão para escolher entre os numerosos pratos do cardápio de hoje: feijoada ou picadinho. Uma gritaria. E Marquinho firme na panca borgnineana.
Uma pessoa esganiçou a 70 decibéis “Tem ovo? Acho que vou pedir ovos fritos!” Gritos de escárnio, gargalhadas se seguiram, especialmente daquela que grita agudamente a 100 antes de gargalhar.
Nem levantei a cabeça, continuei a misturar a gema mole ao arrozfeijão.
Seu Francisco e Seu Pedro colocaram imediatamente as mãos para baixo do tampo da mesa. Eles não têm armas, no bolso, têm alguma bala de hortelã que Marquinho deu a eles na semana passada. Mas, sabem como é, a cena precisa de ser bem composta.
De um segundo para o outro, os quase 80 decibéis daquela mesa caíram para 20. Foi de um segundo para o outro. Viram o meu prato!
Fizeram o pedido a 40 db. Ernest voltou lá para o canto. Inclinou levemente a cabeça para mim. Dona Soraya me deu uma piscadela de zap de paus. Seu Francisco do táxi, a 55 db, atuou “Ô, professor, não tinha lhe visto, como vai seu filho?” Seu Francisco me chama de professor porque pensa que isso me confere alguma autoridade no bar, mas o bar é do Marquinho.
O silêncio voltou, pelo menos até a hora em que terminei de almoçar.
Marquinho olhou para nós todos com aquele olhar de “É... dá pra aguentar mais uns anos por aqui!”
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