segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Bom dia, boa tarde, boa noite

 

“Bom dia!” não funciona mais na comunicação social, grupal. Repararam? Precisa ser “Bom dia a todos!”, “Bom dia a todos e todas!” “Bom dia a todas e todos!” “Bom dia a todas, todos e todes!” O simples “Bom dia!” deixou de exercer a função fática – função da linguagem que serve para abrir, prolongar e fechar um canal de comunicação, disse Roman Jakobson. Tem mais, se se tratar de uma publicação permanente em uma rede social, o “bom dia!” deverá ser seguido por “boa tarde!” e por “boa noite!”.

Sou professor e já trabalhei em salas de aula com mais de setenta alunos, não raro, com cem mais ou menos. Diante de um número grande de pessoas, algo acontece: o professor, o palestrante, o apresentador, o artista etc. perdem a certeza de que funcionaram o “olá!”, o “bom dia!” e afins. Foi suficiente? – ele pensa. É muita gente! Todos me ouviram? Todos se sentiram convocados a me ouvir? A atenção de todos foi requisitada? O canal de comunicação foi aberto de modo simpático?

Os professores tentam resolver essa insegurança:

— Bom dia, garotada!

— Bom dia, pessoas!

— Bom dia, gente!

— Bom dia, pessoal!

— Bom dia, galera!

— Bom dia, meu povo!

— Olá, olá, olá! Bom dia! Bom dia! Galera!!! Bom dia!!!

Eu tentei de tudo. Não somente para chamar a atenção do público, mas, principalmente, para eu ter a certeza de que o processo comunicativo tinha se iniciado. Acabei ficando com o “Bom dia! Bom dia! Bom dia!” Em que o primeiro “bom dia!” é mais esticado, “Bôômm diiiiiaaaa!”; o segundo e o terceiro são rápidos. Fica assim:

— Bôômm diiiiiaaaa, bom dia, bom diaa!!!

Até chegar a essa fórmula, eu tentei muitas. Tentei o bordão presidencial iniciado por José Sarney, usado posteriormente também por FHC e Dilma: “Brasileiros e brasileiras, bom diaaa!”. Experimentei algum gracejo como “Crianças brasileiras do Brasil, bom diaaa!” Quando eu era aluno de cursinho, um professor usava “pessoas”. Achei inusitado na época, ninguém ainda tinha me chamado de pessoa. Propus essa também, mas sem muito sucesso. Foi indo assim, até que me satisfiz em repetir por três vezes o cumprimento. Três é um número bom, diria algum cabalista: “bom dia” é igual a 8, repetido 3 vezes é igual a 24 que dá 6 – o número da comunidade, da família, das relações humanas harmoniosas etc. Está rindo? Se você tivesse que se comunicar diariamente com uma multidão, você também apelaria! Preciso lembrar que Pedro negou Cristo por três vezes. Como fica o bom número 3 nesse caso? Repetir por três vezes uma sentença parece mais um fenômeno linguístico de ênfase do que uma mágica cabalística. Minha mãe, e a sua também, repete uma sentença por duas vezes e diz:

— Se eu tiver que falar mais uma vez...

Três é um número bom, nem Jakobson nem Saussure pensaram nisso! Mas eu escolhi essa fórmula porque me recuso à redundância do “a todos”. “Bom dia a todos!” Se se diz “bom dia!” é para todos que ouvirem, caso contrário, eu me dirigiria especialmente a uma pessoa ou outra. Eu sei, eu sei, que é ênfase, que o “a todos” é ênfase, mas também sei que, a quase todos os desvios, se desculpam pela “ênfase”. Não gosto! Três vezes “bom dia!” é ênfase, isso, sim! Se a mãe usa a ameaça da terceira, é porque funciona.

Voltemos aos penduricalhos políticos!

Quem popularizou isso no Brasil, você querendo ou não foi o José Sarney. Lá pelos idos de 1985. Duvido que fosse pela inclusão, era mais para macaquear o “Ladies and Gentlemen”. Em 2010, acadêmicos, ativistas e políticos estadunidenses mandavam um “Good morning, people of all genders!”. A França e a Espanha, já na década de 80, ensaiavam o “bom dia!” inclusivo, político. No Brasil, em 2023, o ministro Alexandre Padilha iniciou o discurso de posse com “Boa tarde a todas, a todos e a todes!” Perto de 1997, eu fazia meu segundo curso universitário, filosofia, alguns professores nos comunicaram que, malgrado deles, a universidade passava a exigir a inclusão do gênero feminino nos discursos de sala de aula, deviam se referir a alunos e alunas durante a aula.

Qual é a questão?

Um “Bom dia!” político ainda é um “Bom dia!”? Ainda é apenas para abrir e encerrar um ato comunicativo? Se eu digo “Bom dia a todas, a todos e a todes!”, na verdade, estou a dizer “Bom dia, sou progressista!”, “Bom dia, quero dizer que independentemente de minhas posições políticas, se à esquerda, se à direita, sem polarização, eu respeito a todas, todos e todes seja pela manhã, pela tarde ou pela noite!” Para mim, essa é predominantemente uma expressão da função emotiva, aquela que diz sobre o falante, a parte do “Bom dia!” foi só para disfarçar a necessidade de se autoafirmar, ou de se proteger, politicamente. Estou quase convencido que o “Bom dia!” está desaparecendo da comunicação social, incrível. A insegurança que antes tínhamos sobre ter aberto bem ou não o canal de comunicação se transformou em outras inseguranças: “será que sabem quem sou eu?”, “será que vão me cancelar?” etc. Aquela tentativa de ser agradável ou de gracejar converteu-se em provocação, isso também é fato. Pode agir até como uma senha! Não dizem que os maçons emitem sinais secretos para se identificarem entre si? Se bem que um “a todas, todos e todes” não me parece uma senha tão secreta ou discreta, mas é um distintivo sociopolítico.

É isso, um distintivo sociopolítico, função emotiva é a nova fática!

Sinto muito, mas não vou dizer que tenho saudades do tempo em que o “Bom dia!” era só um lindo, simples e sincero “Bom dia!” – primeiro porque nunca foi, segundo porque eu continuo com o meu “Bôômm diiiiiaaaa, bom dia, bom diaa!!!” e ninguém me acha desrespeitoso por isso, me acham velho, ah isso acham, e, vira e mexe, me sondam para descobrir meus posicionamentos políticos, o que é um bom motivo para estabelecer um ato comunicativo também.

O Escritor

 

Já chegava à Rua Quintino Bocaiúva pela Rua Riachuelo, a garoa já queria ser chuva, acelerou suas passadas curtas, amontoou um bocado do tecido lateral do vestido com a mão direita, dobrou à direita na Bocaiúva, atravessou a rua. Se estivéssemos no século 18, ouviríamos o farfalhar da saia no encontro da Rua da Casa Santa com a Rua da Cruz Preta. Mas estamos em 2025, não sei como ainda não quiseram trocar o nome da rua que referencia uma das batalhas da sanguinária guerra contra o Paraguai. Caminhava desde a Cristóvão Colombo. Uma camiseta branca de algodão guarnece o vestido floral, em viscolino, de predominância lilás pastel. Tênis branco. Sacola em algodão cru de alças longas. Urbana, mas excêntrica, paulistana, mas despreparada para a chuva. Talvez fosse mais funcional se caminhasse pela Rue de Rivoli, ainda assim, de guarda-chuva. Tendeu ao ponto de táxi, na urgência pluvial é mais rápido que abrir o aplicativo da Uber. O último carro do ponto saía com outro paulistano. Abrigou-se no Sebo Nova Floresta entre a farmácia e o Banco.

Tremilica, quase caninamente, para sacudir alguns pingos de chuva. Inclina a cabeleira marrom, sacode um tanto, afofa outro tanto, talvez na tentativa de recompor os cachos. Estapeia a sacola de algodão cru, verifica o interior. Pensou em fumar um cigarro. Apanha o celular, antes de chamar um carro pelo aplicativo, abre a câmera para uma selfie.

— #Molhada no sebo!

Desistiu de chamar um carro, a chuva encareceu a corrida. Gláucia, a de olhos glaucos, tem o rosto fino das pessoas finas, a altura das pessoas finas, tem os dedos finos das pessoas finas, a cintura fina, a canela fina, os peitos leves, a bunda elegante, não é grã-fina, porém.

— Espero passar a chuva, vou de metrô, economizo uma grana. Dá pra comprar um livrinho aqui.

A fuligem, o asfalto molhado e o papel velho confluem. As buzinas e sirenes, Belchior na vitrola e Sade nos auriculares dela confluem. Apenas um componente deveria ser proibido em sebos pelo departamento de arquitetura e urbanismo da cidade: piso frio, frio e branco! É funcional, mas não é fino. O departamento de arquitetura e urbanismo sequer existe na prefeitura da cidade de São Paulo, isso é falta de finura, Seu leitor e Dona leitora. O desinfetante recém esfregado no chão de piso frio e branco interditou o Good Girl Blush da nossa musa temporária.

— Oi, procuro por cronistas!

— Temos muitos, todos estão aqui, Paulo Mendes Campos, Xico Sá, Antonio Prata, Fernando Sabino... Machado...  Drummond... todo mundo.

— Eu gosto de ler em transporte público, então, tive a ideia de ler crônicas, são de leitura rápida... Ainda não estou muito familiarizada com o gênero.

— Por que você não escolhe uma coletânea de crônicas? Assim, entra em contato com os principais textos dos autores mais consagrados.

Será que ela conhece “O Amor Acaba”? “Em Tempo de Miojo”? “Amor, Cinema e Telefone”? Eu gosto de uma crônica do Prata, uma em que a amiga detesta o sabor de peixe e sente gosto de peixe em biscoitos de polvilho. Eu também sinto gosto de peixe em biscoito de polvilho, principalmente, naqueles grandes, em forma de bastonetes, feitos e vendidos em padarias. Há dos anelados industriais, também com sabor de peixe, às vezes. Há também os globulares, como os da crônica. Essa crônica do Prata me enturmou. Porque crônica, salvo engano, é para isso, para enturmar.

— Boa ideia! Vou levar este. Tem uma lista enorme de cronistas. Vi, aqui, que tem Clarice Lispector, Cecília Meireles. Deve ter uns cinquenta.

— Quarenta e dois. Quarenta e dois cronistas. Vinte reais. Se me permite, não deixe de ler a do João do Rio e a do Antonio Prata.

— Tem como fazer um desconto? Tem coisas escritas pelo antigo dono.

— São vestígios. Essas anotações agora fazem parte da história do livro. Há de tudo dentro dos livros, nós preservamos. Bilhetes de amor, lista de compras, lembretes inusitados, comentários sobre a obra, bilhetes de ônibus, fotografias, dedicatórias, poemas, certidão de óbito, boletos, manchas de sangue. Vestígios não diminuem o valor do livro, ao contrário.

 

 

Caminhou sem pressa, agora, até o metrô da Sé. Seguiu pela lateral da catedral, pela calçada do comércio. Fumou um cigarro no trajeto. Ela pensou que se tivesse optado pela Rua Senador Feijó, teria chegado mais rapidamente ao metrô, em compensação, não teria parado no sebo. Tudo é crônica.

Tudo é crônica e eu preciso ajustar este meu narrador.

Naquele horário, e por ser a Estação Sé, os vagões do metrô estavam superlotados. Gláucia não pôde abrir o livro. Na Estação Paraíso, sentou-se. Seguia até o Jabaquara. Eu vou assentar essa minha musa temporária à Rua São Borja, perto do terminal Jabaquara. Dei a Gláucia um apelo grego de musa, de olhos glaucos. Na São Borja há uma catedral Copta, não são gregos, mas o alfabeto copta, à exceção de alguns sinais demóticos, usa as letras gregas e foi produzido no período helenístico. O bairro Cidade Vargas garante que Gláucia é de uma classe média, como diria Jessé Souza, remediada. Eu poderia alocá-la mais para perto da catedral grega no Paraíso, mas é uma região mais cara. O problema é a incongruência no fato de ela ter pensado em tomar um táxi lá na Sé para o Jabaquara, sairia uma fortuna. Podemos supor que Gláucia, a de olhos glaucos, tomaria o táxi para outro destino, mais próximo da Sé. Quando entrou no metrô, desistiu e foi direto para casa, pronto.

Nossa musa abriu o livro no Paraíso, quinze minutos para ler alguma crônica. Desconsiderou as numerosas e longas anotações escritas em grafite pelo proprietário anterior, buscou por uma crônica que fosse curtinha. “A Arte de Ser Feliz”, Cecília Meireles. Duas páginas. Autora mulher, isso também influiu. Cecília é contemplativa, intimista, lírica.

— Muito melada! Não gostei. Talvez, quando ela escreveu, 1966, fosse legal. Hoje, já estou cansada dessas mensagens zens, ainda mais vindas do mundinho burguês. Só faltou, no final da crônica, ela fazer uma “publi” de algum curso de yoga.

Dez minutos de caminhada até a sua casa. Certamente, sua mãe ainda não chegara. A mãe de Gláucia é funcionária pública bem remunerada. Parou na padaria, precisava de comprar pão. Fez uma horinha ali, fumou antes de entrar, entrou, pediu um café. Mais uma crônica. Mais uma que se leia em quinze minutos. Escolhia pelos autores no índice do livro. Antes, ela anotou suas impressões sobre a crônica da Cecília. Nunca foi seu costume anotar nas páginas de um livro. Talvez a primeira vez.

— Já está todo rabiscado mesmo!

Ela escreveu assim: “Muito melada! Não gostei. Vai ver que, quando ela escreveu, 1966, era legal. Hoje, já estou cansada dessas mensagens zens, ainda mais vindas do mundinho burguês. Só faltou, no final da crônica, ela fazer uma publi de algum curso de yoga. Estou aqui na padaria e só o que eu vejo pela porta de vidro é a catraca horrível e a Rua Onze de fevereiro, feia. (Gláux, 2025)” Dona leitora, Seu leitor, é que, na crônica “A Arte de Ser Feliz”, a Cecília abre janelas, das diferentes casas onde morou, que sempre dão para uma linda, delicada e feliz cena. Eu concordo com a Gláucia, a Cecília é chatinha, chatinha.

Escolheu outra autora. Clarice Lispector. A crônica “A Descoberta do Mundo”, de 1968. Dessa vez, começou a leitura com uma caneta na mão. Mais um café. Vontade de fumar.

— “Mais uma dizendo que a vida é bonita. Será que era a tendência dos anos 60? Eu esperava mais da Clarice Lispector, alguma coisa mais crítica, mais ácida. Precisa ver também quem selecionou essa crônica para o livro. Tem isso! Eu não li outras crônicas dela e da Cecília. Vai ver que o autor da seleção quer desvalorizar as mulheres! Eu não duvido. Humberto Werneck, depois vou pesquisar. (na padaria, Gláux, 2025)”

Em casa, deixou o livro à mesa da cozinha juntamente com os pães. Acendeu um cigarro, abriu uma cerveja. Preparava o jantar quando a mãe chegou. Depois dos cumprimentos carinhosos, Dona Raquel sentou-se à mesa, com uma xícara de café, também acendeu um cigarro. Soltou o sutiã por baixo do tailleur mocha mousse, descalçou os sapatos, deu uma tragada, soltou as pernas a um ângulo doméstico.

— Nossa, mãe, você está gostosona...

— Livro novo? Este eu ainda não tinha visto.

— Novo, velho. Comprei num sebo lá na Sé. Fui me encontrar com a Luli no Largo São Francisco, na volta passei no sebo. Já li duas crônicas, uma no metrô, outra na padaria. A Luli te mandou um beijo. Tem algum guarda-chuva pequeno aqui em casa? Um que caiba na minha bolsa...

— Deve ter lá no armário da lavanderia. Quais crônicas que você leu? Você viu as anotações que tem no livro?

— Li uma da Clarice Lispector e uma da Cecília Meireles. A da Clarice é melhor, mas não gostei muito de nenhuma das duas. Até anotei minha opinião no fim das duas crônicas. As anotações de caneta são minhas. Sim, eu vi que tem um monte de coisas escritas pelo antigo dono ou dona.

— Então você não passou nos cursinhos pra ver o preço das mensalidades?

— Ah, mãe, amanhã eu vou. Vou com a irmã da Luli. Tô com uma preguiça de fazer cursinho, mas não vai ter jeito.

— Eu também não gosto da Clarice, não sei por que falam tanto. Já li quase tudo, ou tudo, dela. É legal, mas é só isso. Cecília, nunca nem tentei, não é do meu gosto. Seu pai adorava a Clarice Lispector. Depois que ele morreu, vendi quase todos os livros da biblioteca. Me arrependo muito! Até hoje, não sei por que eu fiz aquela merda, acho que eu tava com raiva.

— Ele também anotava coisas nos livros?

— Não são anotações, Gláux!

— Como assim?

— Os textos neste livro. Não são anotações.

Seguiu-se alguns momentos de silêncio. Raquel lia. Gláucia já terminava o jantar. Dispunha a mesa. Espaguete à bolonhesa, file de frango, salada, pão. Duas cervejas. A cozinha esfumaçada pela fritura dos filés. Gláucia abriu mais a janela, olhou para o quintal dos fundos, um pequeno pátio vazio e cimentado, varais vazios, uma vassoura velha escorada à parede, ficou com raiva novamente da crônica da Cecília.

— Você já fez yoga, mãe?

— Deixa eu acabar de ler isso...

Entre uma garfada e outra, entre um gole e outro de cerveja gelada, Raquel lia com atenção o texto escrito a grafite entre as páginas da coletânea de crônicas. Alguns trechos já se apagavam um tanto, nada que impedisse a leitura.

— Gláux, que texto divertido! É uma crônica escrita pelo dono anterior. Chama-se “Hoje, no bar do Marquinho”. É profissional! E tem outros pequenos textos espalhados...

— Quem será? Tem assinatura?

— Colocou a data, 9/10/24, ano passado. Tem só as iniciais do nome, M. C.

— Será que é mulher? Maria Conceição? Márcia Cardoso? Michele...

— É homem! Pela crônica que escreveu... O personagem é masculino, o texto é masculino. M. C., são as iniciais de Mário Conde. Nove de outubro é a data de nascimento de Mário Conde.

Mário Conde? Raquel, então, é leitora de Leonardo Padura! Seu leitor, Dona leitora, Mário Conde é um personagem do escritor cubano, Mário é um tenente detetive da polícia de Havana. Conhecem a quadrilogia “Cuatro estaciones en La Habana”? Deu-me até vontade de promover Raquel, a de olhos glaucos, à condição de nova musa temporária.

— Mário Conde?

— Tô brincando! Você também não entende nada, hein?! Fiquei curiosa agora, quem será?

— Mas quem é Mário Conde, dona Raquel?

— Ah, olha aí no seu google!

— Vou ler em voz alta, quero sentir a musicalidade, o ritmo. Hoje no bar do Marquinho

Vocês já perceberam que eu gosto de arroz-feijão-ovo-salada.

Escutem essa:

Hoje, umas oito pessoas sentaram-se à mesa quase ao lado da minha. Funcionárias de alguma loja ou escritório da região – algumas vestiam calças brancas... devem ser da loja que banha e tosa animais domésticos, nova aqui na rua.

O bar do Marquinho é um bar, os talheres, a louçaria, as mesas e cadeiras e o ar que pouco circula são dos anos oitenta. Os jovens de mente colonizada dirão que é “roots” ou “raiz”, mas não é nada disso. É um bar e é do Marquinho. Às vezes, um bar é só um bar.

Os frequentadores: eu, taxistas, funcionários da Enel, da Claro, da Vivo, da Sabesp, da Comgás, porteiros, passantes etc.

Os mais velhos disputam um lugar onde se possa sentar de costas para a parede e de frente para a porta. Pura sabedoria. Não vai acontecer nada, mas é importante mostrar sabedoria. A melhor mesa é aquela junto à janela e atrás das duas geladeiras, quem se senta ali é o Seu Francisco do táxi, ali ele é o último a ser divisado por quem adentra e bastaria um pulinho, zás, já estaria na calçada.

É preciso saber sentar-se: senta-se, olha-se vagarosamente ao redor para todos com cara de mau, balança-se levemente a cabeça, um movimento vertical quase imperceptível, quando reconhecer um rosto, depois se retoma a varredura por mais uns dez segundos.

Marquinho está ali no canto, com o pano de prato no ombro desde 1986, olhando tudo com cara de Ernest Borgnine. Ele espera acabar o ritual, vem até à mesa e diz “Você quer o quê?”

No bar do Marquinho, ninguém fala muito acima dos 40 decibéis – se você não sabe, 30 decibéis é o recomendado para conversação em bibliotecas, 50 decibéis é a conversação normal.

As pessoas que se sentaram à mesa ao lado destoavam a 60 ou até 70 decibéis. Uma delas ria a 80 e dava um grito agudo a 100 antes de iniciar a gargalhada.

Parei de comer, encarei Marquinho. Marquinho olhou para Seu Francisco do táxi. Seu Francisco cutucou Seu Pedro porteiro. Dona Soraya do edifício Dallas espumou. Todos encaramos Marquinho, enviamos o olhar de “Nunca mais almoçaremos aqui!” Marquinho nos enviou o olhar de “Vou fechar este bar, vou voltar pra Saint Louis!” – Saint Louis é o edifício em que ele tem um apartamento, fica em Peruíbe.

É agora que as coisas se dão:

Marquinho veio atender à mesa estrepitosa. Era aquele povo que não sabe o que quer, um tempão para escolher entre os numerosos pratos do cardápio de hoje: feijoada ou picadinho. Uma gritaria. E Marquinho firme na panca borgnineana.

Uma pessoa esganiçou a 70 decibéis “Tem ovo? Acho que vou pedir ovos fritos!” Gritos de escárnio, gargalhadas se seguiram, especialmente daquela que grita agudamente a 100 antes de gargalhar.

Nem levantei a cabeça, continuei a misturar a gema mole ao arrozfeijão.

Seu Francisco e Seu Pedro colocaram imediatamente as mãos para baixo do tampo da mesa. Eles não têm armas, no bolso, têm alguma bala de hortelã que Marquinho deu a eles na semana passada. Mas, sabem como é, a cena precisa de ser bem composta.

De um segundo para o outro, os quase 80 decibéis daquela mesa caíram para 20. Foi de um segundo para o outro. Viram o meu prato!

Fizeram o pedido a 40 db. Ernest voltou lá para o canto. Inclinou levemente a cabeça para mim. Dona Soraya me deu uma piscadela de zap de paus. Seu Francisco do táxi, a 55 db, atuou “Ô, professor, não tinha lhe visto, como vai seu filho?” Seu Francisco me chama de professor porque pensa que isso me confere alguma autoridade no bar, mas o bar é do Marquinho.

O silêncio voltou, pelo menos até a hora em que terminei de almoçar.

Marquinho olhou para nós todos com aquele olhar de “É... dá pra aguentar mais uns anos por aqui!”

Raquel pegou outro cigarro para outra cerveja. Sorria, deliciada com o cigarro, com a cerveja, com a crônica. Estava tudo ótimo, o jantar, a conversa com a filha. O fim de semana se iniciou como há muito não acontecia, com poesia, humor e um retalho de mistério.

— Gostei mais do que das duas que eu li. Quem é Ernest Borgnine?

— Já sabemos algumas coisas sobre o autor. Ernest Borgnine não é uma referência de jovens. Se o autor respeitou as características de uma crônica, então, o Bar do Marquinho de fato existe, o autor, M. C., é homem e professor. Eu chuto, uns cinquenta anos de idade. Tem ares de paulistano.

— E se eu te conheço bem, dona Raquel, você vai querer descobrir quem é!

— E a senhorinha vai me ajudar! O que mais você acha que podemos descobrir só olhando essa crônica? Vou chamá-lo, por enquanto, de Escritor Marginal, porque ele escreve às margens.

— Agora vou tomar banho, mãe. Já estou quase fedida. Estou cheirando à rua, cigarro, livro velho, fumaça de carro e fritura. Vou jogar no grupo do WhatsApp... ver se alguém conhece o tal do Bar do Marquinho.

— Duvido, não parece ser um bar que vocês frequentem, mas de repente alguém mora perto do bar... Você comprou o livro na Sé, será que o bar é lá pro centro?

— Olha aqui na internet, dei uma busca em “Bar do Marquinho”.

Gláucia entrou no chuveiro. Raquel sentou-se no vaso sanitário com o livro e o celular. Achou um “Bar do Marquinho” em Diadema, nada que se assemelhe ao bar da crônica. Procurou pela crônica também, sem resultados. Sua intuição dizia que era um bar mais próximo ao centro da cidade, que o bar era do Marquinho, mas não era o nome oficial do bar.

Sei que vocês já imaginaram que o escritor marginal pudesse ser o pai da Gláucia, depois desistiram dessa ideia clichê ao saber que a crônica datava de 2024. O pai dela, ao que parece, já morreu faz tempo. Sei também que agora vocês imaginam que o marginal seja eu, o narrador. Também não, eu sei só o que Gláucia e Dona Raquel pensam e sentem, o que veem e dizem, não conheço o escritor marginal. Continuemos nossa investigação.

Gláucia-debaixo-do-chuveiro, não parecia mais tão interessada no assunto. Raquel foi para o outro banheiro, banhar-se também. Levou o livro, deixou-o em cima da cama desarrumada desde cedo, roupas espalhadas, uma bagunça muito bonita, agora ainda mais com o livro, com o tailleur mocha mousse, as peças íntimas em terracota, com a bolsa e o maço de cigarros. Se acrescentarmos um pedacinho final, um fade out, do corpo desnudo de Raquel a entrar no banheiro, ao fundo do quarto, teríamos uma linda capa para um romance contemporâneo de Annie Ernaux ou para uma coletânea de cool jazz. Já posso ouvir o trompete e a voz de Chet Baker em I’m a fool to want you. Dona leitora, Seu leitor, ouçam I’m a fool to want you com o Chet enquanto releem este parágrafo, veja como tenho razão.

Preciso ajustar esse meu narrador!

— Cadê o livro, mãe?

— Tá na cama. Entra! Estou no banho.

— Esse perfume Flor de Carambola é delicioso, me empresta um pouco pra amanhã? Amanhã vou perambular pelos cursinhos.

— Veja o que já temos: homem, pelos rituais masculinos realizados no bar; ele é de classe média, mas se junta aos de outras classes com tranquilidade, é um cara descolado, popular; a referência a Ernest Borgnine e o clima de sallon, que ele imagina na crônica, lhe põem na condição de +50, ou melhor, entre os 45 e 55 anos; deve ser vegetariano, pelo prato de arroz, feijão, ovos e salada; certeza de que é professor, não só porque é chamado assim na crônica, mas também pelo domínio fino da língua, um cara das humanas, talvez professor de língua portuguesa ou de filosofia; é afetuoso e irônico, sem frescuras...

— Sei, e você está apaixonada! Repete o que você falou, vou anotar na caderneta pra gente não esquecer. Você parece aquelas detetivas que traçam perfis de psicopatas. Bom nome, Marginal!

— Ele não quer ser famoso, ele quer ser lido... Eu aposto que ele escreveu outros textos em outros livros que ele vendeu nos sebos! Ele deve voltar sempre à cena do crime, melhor, à cena da Arte. É um artista fantasma, o Marginal. Em que sebo você comprou mesmo este livro? Ele deve passar por lá com frequência. Ali tem, além do Nova Floresta, o Brandão, o Messias, tem um outro na Quintino Bocaiuva, acho que é o José de Alencar, mas há outro lá também. Ele deve ter deixado um livro em cada um desses sebos. Tá anotando?

— Esqueceu de dizer que ele tem um filho! Na crônica, o cara do táxi pergunta pelo filho dele. É casado, mãe!

— Divorciado! Divorciado! Não vai sair hoje?

— Não! Talvez amanhã...

Se recolheram nesse ponto. Cada uma em seu quarto. Raquel queria ler o livro, mas Gláucia o levou para ler mais uma ou duas crônicas antes de dormir. Raquel se contentou com um pouco de música, depois com um episódio do podcast História Pirata, ciborgues e transumanismo, com alguns cigarros.

Gláucia, de caneta em punho, leu a “Era do automóvel” do João do Rio e “Bar ruim é lindo, bicho” do Antonio Prata. Câmera aberta:

— #LeituraNoturna

Dessa vez gostou. Anotou que o Prata escreve como ela gosta, achou parecido, de alguma forma, como o Marginal. Achou mais uns pequenos textos do Marginal, nada que passasse de um parágrafo, talvez rascunhos não desenvolvidos de seus próximos textos ou de textos que não deram muito certo. Deixou essa informação para o dia seguinte, não queria incomodar a mãe, já era tarde. Gastou uns quarenta minutos náufragos no Instagram, trocou algumas mensagens. Por fim, abriu a aba anônima do navegador...

Raquel dormiu. Sonhou com Mario Conde, na verdade, com o ator que interpretou o tenente detetive na série Quatro Estações em Havana, Jorge Perugorría Rodriguez. Acordou agitada às três horas da manhã, a Dona leitora deve compreender bem. Foi à cozinha beber um pouco de água gelada, aproveitou e saboreou duas uvas verdes, dessas de polpas entesadas e dulcíssimas que inventaram para se comer de madrugada, em pé, em frente à geladeira. Fumou um cigarro no quintalzinho dos fundos.

A cidade amanheceu num sábado, sem previsão de chuva. Um lindo céu cinza, sarapintado de manchas azuladas. No Hospital das Clínicas, São Paulo foi diagnosticado com cianose! Raquel foi a primeira a acordar, serviu o café da manhã para o bichano da vizinha, ele não falta um sábado.

— Oi, mãe, vou comer rapidinho, hoje vou aos cursinhos...

— Calma, para que a pressa? Não esquece de ir àquele da Paulista, o da escadaria. Lá...

— Eu achei mais uns textos do Marginal. Todos curtinhos. Marquei as páginas.

— Até sonhei! Sonhei com o M. C., Mario Conde. Eu reparei mesmo que havia mais textos, mas fiquei presa àquela crônica. E, Glaucilene, você me ouviu? Vai até o cursinho da Paulista, no prédio da Gazeta, porque lá...

— Ouvi, Dona Raquelyanne! Eu sei, eu sei... Se vai ler o livro, olha a crônica do Antonio Prata e a do João do Rio, são maravilhosas. Quero ler mais coisas do João do Rio, eu nem sabia da existência dele, o primeiro parágrafo da crônica dele é lindo demais, “A era do automóvel”. A crônica do Antonio Prata, “Bar ruim é lindo, bicho”, se parece muito com a do Marginal, e fala de bar também, os assuntos são diferentes, mas... sei lá... achei parecidas, deve ser o estilo. Deixei marcadas também essas páginas. Olha este textinho do M.C. que achei ontem:

“Hotel Prins Hendrik, Amsterdam. De frente para a Estação Central, de costas para o mundo. O chão está liso e o céu, áspero. Ela me puxa de volta e derruba meu Noilly Prat.”

— Que delicadeza! Você procurou pelo hotel no google?

— Claro! Já aprendi com você a puxar sempre o fio do novelo. Foi nesse hotel que morreu um músico de jazz... Espera um pouco, eu anotei o nome aqui... Chet Baker. Ele caiu da janela do terceiro andar, foi em 1988.

— Ah, agora fez mais sentido. Que delicadeza! Na ficção, alguém salva o Chet... Ou será que M. C. se hospedou lá e reviveu poeticamente o desastre? Delicado. Sensível. Prosa poética. Jazz em prosa. Deu pra ouvir o trompete esvoaçante. Gláux, você reparou nos contrastes? “Hotel... mundo”, “de frente... de costas”, “chão... céu”, “liso... áspero”; “puxa... derruba”. Noilly Prat, nunca bebi, mas vou providenciar... É um vinho?

Raquel, agora sozinha em casa, lavou-se, penteou-se, vestiu-se, perfumou-se. Maquilagem levíssima. Decidiu que sua atividade matutina seria ir aos sebos no entorno da Sé. Levaria o livro, perguntaria sobre o Marginal. Eu não ia falar nada, mas Raquel está mesmo linda, precisa de ver! Um short jeans sóbrio. Camisa branca de linho, larga, mangas longas dobradas. Um Ray-Ban Round Metal, rose gold, lentes cinzas. Tênis branco. A única peça de que discordo é aquele colar de pedras enormes, nem sei se é pedra mesmo ou alguma resina, modinha entre psicólogas e psicanalistas, que se vê no pescoço de Maria Homem de Melo ou de Maria Rita Kehl e de todas as suas imitadoras (é o equivalente feminino daquela cotoveleira de couro nos paletós de velhos intelectuais). Acho até que já vi Marilena Chauí com um colar desses, e com a cotoveleira também. Sua cabeleireira disse que a cor de seu cabelo, agora, é salt and pepper, para mim é o velho e bom grisalho. Mandou uma mensagem para a amiga.

— Oi, Miriam, vamos perambular pelos sebos lá da Sé? Vou sair em quinze minutos...

— Claro, eu tava mesmo pensando no que eu faria hoje. Nos encontramos no metrô do Paraíso? Com que roupa você vai?

— Ah, de short jeans e camisa branca, meu básico de sempre. Na entrada do paraíso, então. Meia hora, eu chego lá. Tenho uma história pra te contar!

Miriam Elbaz, a de cabelos crespos, é uma personagem secundária, leitor e leitora, está aqui apenas para que a nossa nova musa temporária não vá sozinha aos sebos e, claro, para nos revelar mais sobre nossa protagonista. É uma amiga antiga de Raquel, a de olhos glaucos, estudaram juntas no colégio e na faculdade de jornalismo da Cásper Líbero.

Raquel enfiou na bolsa a caderneta, aquela em que Gláucia anotara o perfil de M. C., e uma caneta preta de ponta média. Uma detetive. Uma jornalista. Chamou um carro pelo aplicativo. Encontrou a amiga à boca do Paraíso. A caminho do trem, contou toda a história a Miriam, com detalhes que eu mesmo não ousei contar aqui.

— Até sonhei que...

A primeira parada foi no Nova Floresta com aquele piso frio e branco. Neste ponto, Miriam já estava quase tão envolvida quanto a amiga Chelly. Chelly (pronuncia-se Keli) é o diminutivo carinhoso de Rachel, leitores!

— Vamos puxar um fio desse novelo, Chelly!

— É assim que se fala, jornalista Mira! Trouxe uma caderneta!

— Mas não deixe o pessoal do sebo ver o caderninho, podem se intimidar!

Para a atendente do nova Floresta:

— Bom dia! Minha filha comprou este livro aqui, foi na sexta-feira. A Gláucia.

— Me lembro dela. Algum problema?

— Não, ao contrário, amamos o livro. A questão é que dentro do livro, olha aqui... Tem esses textos escritos pelo antigo dono do livro. Ele assina com M. C. A senhora tem ideia de quem ele seja?

— Meu nome é B. Não precisa me chamar de senhora.

— Raquel! Ela é a Miriam.

— Não, não tenho ideia de quem seja M. C. Sua filha, de fato, tinha me mostrado que o livro possui muitas anotações. Mas por que vocês querem saber de quem era o livro?

— Eu achei admiráveis os textos e anotações que ele escreve. É um escritor dos bons, prateleira de cima. Pensei até que pudesse ser alguém famoso.

— Eu devo dizer que não sei quem é, mas, mesmo que eu soubesse, acho que eu deveria preservar a identidade dos clientes. Vocês me entendem, né? O que posso fazer é verificar aqui no sistema quando este livro deu entrada aqui na loja. Tudo bem?

— É um estranho caso de amor platônico, B. Minha amiga Raquel está platonizada...

— 22 de novembro de 2024. Só tenho essa informação, sinto por não poder ajudar mais. Mas ele é tão bom assim?

Raquel, que já estava sem os óculos escuros, conta a história da morte de Chet Backer, depois lê o trecho poético sobre o Hotel Prins Hendrik.

— Muito elegante! Eu amo Chet Backer. Temos alguns álbuns dele aqui.

— Há uma crônica completa. Quer que eu a leia? É um pouco longa...

— Claro, isso está divertido...

B. passou café para três xícaras. Raquel leu a crônica com a desenvoltura de uma jornalista que quase já sabia de memória o texto, baixava os olhos para o texto de quando em quando para não perder o fio da leitura.

— Chelly, você me disse que a crônica era boa, mas é profissional mesmo!

— Também achei profissional, você tem razão em pensar que M. C. está na prateleira de cima!

Em poucos minutos as três mulheres, platonizadas, já estavam folheando outros livros de crônicas na esperança de achar mais algum texto do Marginal. O fio do novelo fora puxado. Chet Backer flutuava no pick-up. Faltou apenas o Noilly Prat. Aquele piso bem que poderia não ser branco e frio. Se fosse de Vermelhão, mesmo que simples, seria, além de funcional, mais bonito. Vermelhão é um piso antigo, leitores, de cimento queimado e tingido de vermelho com corante em pó chamado Xadrez.

Gláucia e a irmã da Luli decidiram pelo cursinho no prédio da Gazeta. Enquanto admiravam, no MASP, a mostra “Histórias da Ecologia”, combinaram que prestariam vestibular para o curso de jornalismo. Câmera aberta: #EscadariaGazeta, #Masp, #Jornalistas.

De volta ao sebo. Mas, agora, no Sebo do Messias. Do falecido Messias (1941/2024).

— Vocês duas não vão acreditar!!! Dona Raquel, eu mesmo não estou acreditando!

— Achou alguma coisa?

— Achei mais do que alguma coisa. Um Roniwalter Jatobá, “Crônicas da vida operária”.

— Roni o quê?

— Roniwalter. Roniwalter Jatobá! Olhem as anotações, a mesma letra, as mesmas iniciais M. C. E não é só isso...

— Não acredito, Chelly! Você está certa, o Marginal espalhou livros cheios vestígios pelos sebos da região.

Agora é aquele momento do texto em que o narrador paralisa a ação. Por meio de descrições, ações paralelas, asserções filosóficas, críticas etc., ele faz a manutenção do suspense e também pode dar um salto espacial ou temporal – como aconteceu ainda há pouco com a Gláucia no MASP, foi tempo suficiente para Raquel mudar de sebo e recontar a sua história para outro atendente. Sinto muito, leitora, sinto muito, leitor, mas é inevitável que ele interrompa. Talvez nosso narrador use o Roniwalter como subterfúgio. Vejamos.

O rosto de Raquel enrubesceu. Não conteve o sorriso que, de início, foi o de sabichona, mas progrediu para o de felicidade, o mesmo de quando, há pouco, viu na rede social que sua filha será jornalista. Com as duas mãos, alisou sua cabeleira salt and pepper para trás, como quem precisa se livrar de distrações. Os olhos remoçaram 30 anos. Os sonhos remoçaram 30 anos. Conteve-se para não reagir muito abruptamente. Respirou. Olhou para Miriam.

— Me deixa ver!

“Se carecesse do monturo de conhecimentos, as algemas do mundo, cujos gases tornaram cinza seus olhos e enrudecidos quaisquer ângulos de sua fisionomia, tudo seria desculpável: o penico, o amontoado de cascas de laranja para acender o fogão a lenha, o biotônico, o emplasto, o dinheiro enterrado, a estrela se sansalamão na porta... O ciclo que se poderia confundir com a virtude da fidelidade, a carestia que poderia ser tomada por humildade, a solidão e a barba que os incautos aceitam como ranço de sabedoria deram a Petrônio Inço a malha de ouro que encobriu o medo, a avareza e a soberba.”

— É ele, Chelly? Deixa eu ver também?

— A letra é a mesma. O estilo do texto é diferente. Mas a letra e assinatura são dele. É do meu Marginal! Eu vou levar o livro. Qual o preço?

— Espera, eu disse que tinha mais uma coisa! Eu me lembro dele. Quer dizer... do rosto. Espera um pouquinho, vou te mostrar uma coisa...

O livreiro foi para os fundos da loja.

— Mira, estamos prestes a resolver o caso!

— Ou uma parte! Não se empolgue...

— O vendedor está demorando... preciso fumar agora.

Deram uns poucos passos para fora da livraria. Raquel e Miriam se aliviavam. Raquel mostrou a foto da filha que comunicava seu futuro de jornalista. Gláucia e a irmã da Luli na saída do Masp encontraram acidentalmente dois amigos, foram para trás do vão livre do museu fumar um baseado. “Da flor!” disse um deles. O leitores podem imaginar que Gláucia aproveitava o tempo “da flor” para narrar aos amigos sobre a aventura livresca da mãe, mas não foi assim. O grupo de amigos falava sobre as futuras jornalistas.

O livreiro materializou-se com um livro e um cigarro nas mãos ali na calçada.

— Olhem este livrinho. “Finismundo, a última viagem”. É do poeta e tradutor Haroldo de Campos. Não é o livro mais raro que temos, mas não é muito fácil de encontrá-lo hoje em dia. No finalzinho do ano passado, um sujeito veio aqui vender uns livros. O “Crônicas da vida operária”, do Roniwalter Jatobá, e este do Haroldo de Campos. Eu me lembro porque não é toda hora que Finismundo aparece por aí. Tive de negociar com o sujeito por um bom tempo. Ele conhece muito bem o mundo dos livros. Disse que possuía em sua biblioteca mais dois exemplares do Finismundo, um deles autografado pelo Haroldo. Chegamos a um valor razoável. E foi isso! Há apenas um grifo, veja, nestes versos:

O ínvio-obscuro

caos pelaginoso

até onde se esconde a proibida

geografia do Éden – Paradiso

terreno: o umbráculo interdito:

a lucarna: por ali

istmo extremo ínsula

se tem acesso ao céu

terrestre: o transfinito.

— E... e... como ele era? O rosto... o corpo...

— Bom... ele tem a minha altura, 1,75 m, parecia ter em torno dos 50 anos, nem gordo nem magro, barba grisalha, quase branca, é um cara desenvolto, como eu já disse, culto... ah, tinha um vozeirão grave, fumante... Jovial, se me lembro bem, estava de jeans e camiseta preta sem estampa.

— Mas o nome? O senhor não se lembra mesmo? O senhor não registrou em algum lugar? Há alguma filmagem das câmeras de segurança...

— Não lembro! Não há gravações. Só me lembro disso.

— Alguma marca no rosto, nos braços, nas mãos?

— Não me lembro, foi no final do ano passado. Ele não veio mais. O cabelo era bem grisalho nas laterais, curtinho, caído pra frente. Tinha uma bolsa... de couro, tiracolo, sabe, como na década de 80, mas não era do tipo executiva, era dessas que a gente compra na feira de artesanato da República. Sei lá...

— Se o senhor fosse dizer que o M. C. se parece com alguém famoso... quem seria?

— Não sei... talvez... sei lá, a senhora conhece o Slavoj Žižek? Pensando bem, parecia um pouco. Mais magro talvez... Ou pode ser imaginação minha.

— Conheço!

— MANUEL!!! Era Manuel! Sabia que eu ia lembrar. Manuel! Minha memória é muito boa, hein, pode falar!

Então, sabemos que o escritor Marginal é Manuel. Sinceramente, leitores, eu estava torcendo para ser Mário. Mário Conde. Mas a vida é um “caos pelaginoso” sobre a qual a gente escreve, pensa, romantiza etc. na tentativa de lhe dar sentido, sentido humano, na procura de uma “lucarna” para o “transfinito”.

Sinto muito, leitores, sei que olharam os versos de Haroldo de Campos apenas superficialmente, depararam-se com palavras estranhas e seguiram adiante a leitura, mas terão de voltar lá, recorrer ao dicionário, procurar na internet um resumo esclarecedor sobre o Finismundo. Tudo é crônica porque tudo é vestígio. Rubem Braga dizia que “se não é agudo, é crônica”. Este meu narrador me surpreendeu.

— Manuel C. Você está bem, Chelly? Chelly! Chelly!

— Sim. Mais ou menos. Olha, quero levar esses dois livros.

— Não posso vender o Finismundo por menos de 200 reais!

— Não importa. Vou levar os dois. E fique com o meu contato, se o tal Manuel C. aparecer por aqui...

Eu iria direto ao Instagram, procuraria por um Manuel C. com cara de Žižek. Mas não foi assim que reagiu Raquel.

— Vamos ao sebo do Brandão?

— Não! Por hoje chega, Mira! Estou exausta. Exausta e faminta!

As amigas voltaram-se para a direta, acenderam mais um cigarro, avançaram mais uns sete, ou menos, metros, Padaria Santa Tereza, a mais antiga de São Paulo, dizem que a mais antiga do Brasil, desde 1872. Chama-se Santa Tereza porque, na época do Império, esse era o nome da rua – hoje, Praça João Mendes. Começaram o almoço, no segundo andar, com e sanduíche SHAP e cerveja.

Raquel não parava de olhar para todos os cantos do restaurante, como se vigiasse ou se sentisse vigiada. Ela não estava bem.

— O que está te incomodando?

— Não sei! Estou esvaziada. Já não sei mais por que corri tanto atrás de saber quem era o Marginal. Quer saber, os textos dele nem são tão bons. Eu mitifiquei a figura do Manuel C. Agora que sei que é um cara comum, uma pessoa de verdade... Não sei o que eu buscava...

— Típico... Essa é você desde sempre. Me lembro de quando você conheceu o Arnaldo.

— Ando mesmo pensando nele... Gláucia se matriculou no cursinho, ano que vem vai fazer jornalismo... O tempo passou. Vou aproveitar essa minha onda literária e recompor a biblioteca lá de casa. Você sabe, quando o Arnaldo morreu, a gente se mudou de casa, me desfiz da biblioteca do Arnaldo. Eu estava com raiva, com medo, a Gláux tinha dez aninhos. Fiquei apavorada.

— Sei... e depois desses anos todos, você sonhou de novo. Acordou de novo! Meu casamento está uma merda... a culpa é minha, eu sei. Estou vendo a hora que o Charles vai me pedir em divórcio. Nós duas precisamos voltar a desejar, a ter nossas identidades de volta. A gente se apagou. Ficamos velhas e chatas, amiga. Duas acomodadas, porque acomodadas dói menos... sabe quando a gente mexe em coisa velha? Na mangueirinha sanfonada da máquina de lavar roupa, e o plástico se craquela todo, e a gente pensa: era melhor não ter mexido...

— A gente craquelou... mangueirinha sanfonada, Miriam? Não tinha uma metáfora melhor, não? Sua tosca!

— É que eu mexi na mangueirinha da máquina ontem. Agora to sem máquina de lavar... Até o Charles tomar providência... já viu, né?! Vamos passar ali na rua Riachuelo, tem um depósito lá, deve vender a tal mangueirinha...

— Vamos! Vamos começar o nosso conserto pela sua máquina (do mundo) para que, no mínimo, ela não lhe sirva mais de metáfora pra nada!

Dona leitora, Seu leitor, eu esperava a deixa para voltar. Eu pretendia fazer a relação com A Máquina do Mundo, do Drummond, mas Raquel se adiantou. Eu é que não vou impedir a personagem de falar, mas eu faria uma relação bem melhor com o poema: tivemos “à boca do Paraíso” lá na cena do metrô, tivemos “Paradiso” e “transfinito” nos versos de Haroldo, agora A Máquina do Mundo etc., vestígios não faltaram para os leitores sacarem que os textos do Marginal serviram de “lucarna” para Raquel. Bom, agora que ela se adiantou e estragou tudo, só me sobrou a parte em que eu digo: o conto iniciou e terminou na Rua Riachuelo ou Rua da Casa Santa, ali, de fato há um depósito, mas sei que não vendem a tal mangueirinha sanfonada, Raquel e Miriam seguiram “vagarosas de mãos pensas”.

 

 

Tosse crônica

 

Aqui na rua de casa, e nas adjacências, há incontáveis academias para o culto ao corpo. Me incomoda? Nem um pouco, sério! Sou pela liberdade de cultos. O pessoal aqui da vila lota esses espaços. A quaisquer horas do dia ou da noite, da madrugada, você vai topar com esse público que usa aquelas roupas, aquelas garrafas, viseiras, vermelhos, calorentos, com o branco dos olhos bem brancos, nas calçadas do bairro. Uma gente muito bonita.

A crônica é sobre um comportamento crônico de alguns deles, de muitos deles, dos cultivadores de beleza física. É pela saúde, alguém vai gritar. A saúde é bela também, e física também. Talvez eu volte a este detalhe, aguarde!

Em 2017, uma rede sueca de farmácias, a Apotek Hjärtat – pronuncia-se “apotiék iárta”, cuja tradução aproximada é “Farmácia Coração” – teve uma ideia publicitária para se autopromover dentro da cultura desperta: constranger os tabagistas que fumam pelas ruas da cidade. Um painel de vídeo, colocado próximo aos pontos de ônibus, trazia uma personagem que, ao detectar a aproximação de um fumante, começava a tossir fortemente. A tossida não apontava para a futura, ou presente, condição de saúde do fumador, não, o constrangimento consistia no fato de ele e sua fumaceira incomodarem os passantes, passivas vítimas de sua irresponsabilidade.

Em 1995, o prefeito da cidade de São Paulo, Paulo Maluf, implementou leis restritivas aos fumantes paulistanos. Depois, o Brasil aderiu. Arguido no programa televisivo Roda Viva, disse que se preocupava com a saúde pública. É um expediente que sempre funciona. Em nome de uma virtude (proteger as criancinhas, proteger a saúde etc.), atende-se a um programa de poder, normalmente, econômico e político. Durante a década de 1980, nos Estados Unidos, claro, uma série de pesquisas apontavam para o prejuízo econômico que os fumantes provocavam nas empresas, pois faltavam mais que os outros funcionários, paravam de trabalhar durante o expediente para ir dar uma pitada etc. Pega mal para a burguesia industrial proibir os funcionários de fumar, alegando que querem ganhar mais dinheiro, explorar mais, oprimir mais. Pega muito mal. Então, a publicidade entra em ação, publicidade é o braço armado do capitalismo. Apelaram para a saúde pública, para a saúde do próprio trabalhador, especialmente, das vítimas passivas – essa parte da estratégia é das mais importantes, criar inimigos dos fumantes entre a própria classe trabalhadora.

Quem vai objetar uma preocupação tão nobre com a saúde?

A Alemanha da década de 1930 foi a pioneira no combate ao tabagismo. Médicos nazistas foram os primeiros a apontar para o câncer de pulmão.

Sim, a Alemanha estava sob o regime de Hitler. O maluco tinha uma pendenga pessoal com o tabaco e, claro, a saúde do povo ariano era fundamental. As plaquinhas de “proibido fumar” abundavam pela Alemanha nazista antes que qualquer outro país pensasse nisso. Linda e inquestionável preocupação com a saúde. Lembro-me de ter contado essa história a um amigo, que nem era meu amigo, era alguém para quem eu precisava fingir amistosidade para manter boas relações trabalhistas. Meu amigo, bombado, com o branco dos olhos mais brancos que já vi, com a cheiqueira na mão, fez uma cara de que eu nunca mais vou me esquecer e disse: “então ele também fez coisas boas!” Não era meu amigo, repito, na verdade, insisto!

Juro que isso não foi um passarinho! “Passarinho” é quando um cronista inventa ou enfeita um detalhe da história para dar mais graça ou ênfase ao texto. A famosa mentirinha. Não foi passarinho, o meu amigo era mesmo cultor de braços-pernas-abdômen-peito-costas, estava mesmo com uma cheiqueira em mãos e achou mesmo que o líder nazi fizera uma coisa boa na vida. Mesmo!

Voltemos à minha rua de 2025!

A campanha publicitária, 2017, de autopromoção da farmácia sueca, aquela do constrangimento, chegou à minha rua, creio que no ano passado, talvez um pouco antes, mas agora está mais presente e mais insidiosa (insídia diz respeito a ardis). Demorou, mas chegou. Por aqui, até o descolonialismo é importado. Se caminho fumando pelas calçadas e topo com aquelas pessoas bonitas, vermelhas, calorentas, com aquelas roupas e garrafas, com aquela esclera mais alva do que as asas de um arcanjo, elas tossem! Se estão em grupo, tossem em grupo.

Não cederei ao contra-argumento fácil do “tussam para os automóveis, tussam para os caminhões, tussam para as motocicletas, tussam com a sueca Greta para o minério de ferro do supino!” Tampouco me constranjo. Altercar com esse povo é ceder às estratégias, antes nazis, agora neoliberais. São vítimas passivas, mas não da minha fumaça, são vítimas passivas do neoliberalismo. Do neoliberalismo que nos adoece a todos. Como fala o Safatle mesmo? “O neoliberalismo é uma forma de gestão do sofrimento psíquico.”, acho que é isso. O historiador Marc Ferro já dissertava sobre isso à maneira dele: “A doença é então um desafio disputado pela ordem médica, pelas empresas, pelo Estado e pela ordem jurídica. Fonte de proveito e de poder, a doença torna-se um personagem social que alarga o seu campo.” Confesso que, para essa citação, tive de recorrer ao livro ali na minha estante, de memória não deu.

Eu não cedo. Há um livro de Gilles Deleuze, “Lógica do sentido”, que acrescenta a este meu texto um espírito: “... et que plutôt la mort que lá santé qu’on nous propose.” “... antes a morte do que a saúde que nos propõem.” Artaud, Artaud, Artaud! Lógico que não defendo a morte, lógico que não quero morrer, lógico que é um emblema de resistência. Afinal, morto, eu nem fumaria...

Elas cedem. Cedem, mas inconscientemente, o que sentem é heroísmo participativo, atuante, em nome da salvação da raça, da espécie, em nome da beleza, da paz, do respeito, da saúde, da limpeza, da pureza. Parece até que descrevi um soldadinho fascista, mas é só o povo das academias aqui da rua.

Claro que nada disso é uma ode ao tabagismo, longe disso. Aliás, há anos que não consigo fazer odes a nada, nem subir escadas. Como me diz o meu filho: “Você precisa fazer academia!”

Redação, Fuvest 2026, proposta 1

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