domingo, 19 de outubro de 2025

Na meia-água (crise de pânico)

A perpendicular subia por mil metros, culminava em uma banca de revistas que vendia também estalinhos. O menino acostumou-se a subir até o armazém a duzentos metros, até o bazar a duzentos e cinquenta metros. Descalço, sem camisa, com as moedas apertadas na mãozinha, meteu-se sozinho para os estalinhos. Excedeu o armazém, superou o bazar. Olhou para o chão por cinco metros, obstruiu o narizinho com o polegar e o indicador diante do açougue para interditar o engulho. Aos setecentos metros, Fobos segurou seu bracinho esquerdo e Deimos, o ombro direito. A perpendicular cresceu aos seus olhinhos verdes, ganhou proporções gigantescas, alargou-se, a atmosfera óptica tremeluziu. Os passantes, sombras funestas. Munch gritou. O menino chafurdou até o fígado nas secreções assanhadas dos gêmeos de Ares. Correu. Correu. A carniçaria. A carniçaria. A carniçaria. O bazar. O armazém. Comprou as bombinhas? Cadê seu pai? Ninguém foi feliz naquela meia-água; nem ninguém nem nada em 1974.

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