segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

Redação, Fuvest 2026, proposta 1

 

Proposta 1
Redija
um texto dissertativo-argumentativo, no qual seja exposto seu ponto de vista sobre o tema: O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado.

Sem anistia

“Jesus disse: ― Pai, perdoa‑lhes, pois não sabem o que fazem.” V. Jankélévitch, filósofo conhecido por tratar do tema “perdão”, discordava dessa sentença evangélica porque se “não sabem o que fazem”, erram, logo, precisam de correção, necessitam de perdão os que agem livremente com maldade. Desculpar os maus, ou desculpar o mal, no entanto, é uma atitude tão complexa e paradoxal que está no rol das virtudes morais. Duas dessas dificuldades estão em ponderar sobre as condições e os limites para a misericórdia.

 

A condição mínima para escusar alguém por um ato livremente maldoso é o arrependimento. O ex-presidente da república e todos os envolvidos na tentativa de golpe contra o Estado brasileiro, por exemplo, pedem anistia, mas não pedem desculpas. O arrependimento é condição porque implica a promessa do indivíduo em não recorrer novamente à maldade, ou seja, o perdão quer libertar da irreversibilidade do passado e da imprevisibilidade do futuro, perdoar não pode transformar em refém do medo o misericordioso – caso contrário seria se entregar a possíveis e novas injustiças. Além disso, o perdão é uma atitude moral, enquanto a anistia é um elemento jurídico, e uma não resulta da outra. Misericórdia cessa o ódio, todavia não obsta a justiça.

 

Em contrapartida, mesmo diante do arrependimento, há limites intransponíveis para o perdão humano – daí imaginou-se até a “misericórdia divina”. Perdoar o imperdoável, um paradoxo. Viver com o nojo, com o ódio, impõe-se como necessidade de reconhecer o monstruoso como monstruosidade, o mal como maldade. O genocídio em Gaza é imperdoável ainda que houvesse arrependimento. O genocídio em Dachau é imperdoável ainda que houvesse arrependimento. O genocídio no Congo colonial é imperdoável ainda que houvesse arrependimento. Mortos não perdoam os vivos e esses não podem perdoar os monstros sem que isso lhes custe a condição humana. Ou a misericórdia divina dissolve o paradoxo – porque a metafísica é também da condição humana –, ou a memória sem ódio é o que resta.

 

Por fim, o perdão revela-se como virtude moral condicionada ao arrependimento e limitada pela monstruosidade. Não substitui a justiça, pois perdão não é impunidade, mas a cessação do ódio. Não perdoa o imperdoável, pois não é possível desfazer o irreparável. Se eles sabem o que fazem, a humanidade sabe o que fazer.

 

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