sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Na meia-água (a mordida)



 
Precisa levar esse menino na rua pra ele aprender andar de bicicleta! O menino montava na bicicleta ali mesmo no corredor de minguada iluminação, mantinha o guidom escorado à parede e pedalava para trás. Suava, ofegava, pedalava para trás, sequer imaginava para frente. Você precisa levar esse coitado na rua, no bar você vai! O menino pedala pra trás! O braço da bicicleta já descascou a tinta da parede! Tem que encher os pneus, não tá vendo que tá murcho? No sábado, antes do almoço, o pai levou o menino à rua. O menino montado na bicicleta. O pai com uma das mãos segurava o guidom, com a outra, o selim. O menino pedalou para frente. Não se equilibrava. Era difícil. O pai queria ir ao bar. Não se equilibrava. Era difícil. O pai soltou o selim e segurou o braço do menino. Era difícil. O pai apertava o braço. O pai esmagava o braço. Pai, chega! Eu quero entrar! O pai continuou. Foi mais para frente na rua. Voltou. O bracinho doía. Era difícil. Já em frente ao portão da casa, o pai mordeu as costas do menino à altura do ombro. O pai tinha dentes pequenos, marrons, rilhadores. O menino foi transido devolver a bicicleta ao corredor de minguada iluminação. Conseguiu? Cadê seu pai? Ninguém foi feliz naquela meia-água; nem ninguém nem nada em 1976.


Um comentário:

  1. Essas partes dos anos 70, sob a meia-água, sempre me quebram... É a mesma sensação de quando li Meu pé de laranja lima.

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