segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Na meia-água (o arpão de gelo)

 
A mãe lavava a cozinha de piso vermelho, empilhava aos pares as seis cadeiras de fórmica azul, assento com assento, as pernas de uma cadeira no chão, as da outra voltadas para o teto formavam uma cabine com manches de espaçonave. O menino acomodava-se ali, segurava os controles e voava, manobrava, disparava as armas. Mãe, eu falei pra professora que eu não tenho o material porque o pai gastou o dinheiro na pinga! Fora a justificativa da mãe quando o menino relatou a cobrança da professora pelos apetrechos escolares. Não era pra falar isso pra professora, e agora? Pra que você foi falar isso? menino burro! Com que ódio a mãe ralhou. Depois, com que descoroçoamento a mãe desgrenhada, apoiada no rodo, olhou. Os bracinhos enregelaram-se nas alavancas de comando. O menino mentira à mãe, não dissera nada à professora. Mentira para se arregimentar à mãe. Desmentir seria revelar-se doloso. A nave foi abatida, o piloto, trespassado por um arpão de gelo. Ninguém foi feliz naquela meia-água; nem ninguém nem nada em 1975.

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