domingo, 19 de outubro de 2025

Na meia-água (crise de pânico)

A perpendicular subia por mil metros, culminava em uma banca de revistas que vendia também estalinhos. O menino acostumou-se a subir até o armazém a duzentos metros, até o bazar a duzentos e cinquenta metros. Descalço, sem camisa, com as moedas apertadas na mãozinha, meteu-se sozinho para os estalinhos. Excedeu o armazém, superou o bazar. Olhou para o chão por cinco metros, obstruiu o narizinho com o polegar e o indicador diante do açougue para interditar o engulho. Aos setecentos metros, Fobos segurou seu bracinho esquerdo e Deimos, o ombro direito. A perpendicular cresceu aos seus olhinhos verdes, ganhou proporções gigantescas, alargou-se, a atmosfera óptica tremeluziu. Os passantes, sombras funestas. Munch gritou. O menino chafurdou até o fígado nas secreções assanhadas dos gêmeos de Ares. Correu. Correu. A carniçaria. A carniçaria. A carniçaria. O bazar. O armazém. Comprou as bombinhas? Cadê seu pai? Ninguém foi feliz naquela meia-água; nem ninguém nem nada em 1974.

Malha de Ouro (fragmento de personagem)

 

Se carecesse do monturo de conhecimentos, as algemas do mundo, cujos gases tornaram cinza seus olhos e enrudecidos quaisquer ângulos de sua fisionomia, tudo seria desculpável: o penico, o amontoado de cascas de laranja para acender o fogão a lenha, o biotônico, o emplasto, o dinheiro enterrado, a estrela se sansalamão na porta... O ciclo que se poderia confundir com a virtude da fidelidade, a carestia que poderia ser tomada por humildade, a solidão e a barba que os incautos aceitam como ranço de sabedoria deram a Petrônio Inço a malha de ouro que encobriu o medo, a avareza e a soberba.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Na meia-água (a mordida)



 
Precisa levar esse menino na rua pra ele aprender andar de bicicleta! O menino montava na bicicleta ali mesmo no corredor de minguada iluminação, mantinha o guidom escorado à parede e pedalava para trás. Suava, ofegava, pedalava para trás, sequer imaginava para frente. Você precisa levar esse coitado na rua, no bar você vai! O menino pedala pra trás! O braço da bicicleta já descascou a tinta da parede! Tem que encher os pneus, não tá vendo que tá murcho? No sábado, antes do almoço, o pai levou o menino à rua. O menino montado na bicicleta. O pai com uma das mãos segurava o guidom, com a outra, o selim. O menino pedalou para frente. Não se equilibrava. Era difícil. O pai queria ir ao bar. Não se equilibrava. Era difícil. O pai soltou o selim e segurou o braço do menino. Era difícil. O pai apertava o braço. O pai esmagava o braço. Pai, chega! Eu quero entrar! O pai continuou. Foi mais para frente na rua. Voltou. O bracinho doía. Era difícil. Já em frente ao portão da casa, o pai mordeu as costas do menino à altura do ombro. O pai tinha dentes pequenos, marrons, rilhadores. O menino foi transido devolver a bicicleta ao corredor de minguada iluminação. Conseguiu? Cadê seu pai? Ninguém foi feliz naquela meia-água; nem ninguém nem nada em 1976.


segunda-feira, 13 de outubro de 2025

Na meia-água (o arpão de gelo)

 
A mãe lavava a cozinha de piso vermelho, empilhava aos pares as seis cadeiras de fórmica azul, assento com assento, as pernas de uma cadeira no chão, as da outra voltadas para o teto formavam uma cabine com manches de espaçonave. O menino acomodava-se ali, segurava os controles e voava, manobrava, disparava as armas. Mãe, eu falei pra professora que eu não tenho o material porque o pai gastou o dinheiro na pinga! Fora a justificativa da mãe quando o menino relatou a cobrança da professora pelos apetrechos escolares. Não era pra falar isso pra professora, e agora? Pra que você foi falar isso? menino burro! Com que ódio a mãe ralhou. Depois, com que descoroçoamento a mãe desgrenhada, apoiada no rodo, olhou. Os bracinhos enregelaram-se nas alavancas de comando. O menino mentira à mãe, não dissera nada à professora. Mentira para se arregimentar à mãe. Desmentir seria revelar-se doloso. A nave foi abatida, o piloto, trespassado por um arpão de gelo. Ninguém foi feliz naquela meia-água; nem ninguém nem nada em 1975.

Redação, Fuvest 2026, proposta 1

  Proposta 1 Redija um texto dissertativo-argumentativo, no qual seja exposto seu ponto de vista sobre o tema: O perdão é um ...