Já chegava à Rua Quintino Bocaiúva pela Rua Riachuelo,
a garoa já queria ser chuva, acelerou suas passadas curtas, amontoou um bocado
do tecido lateral do vestido com a mão direita, dobrou à direita na Bocaiúva,
atravessou a rua. Se estivéssemos no século 18, ouviríamos o farfalhar da saia
no encontro da Rua da Casa Santa com a Rua da Cruz Preta. Mas estamos em 2025,
não sei como ainda não quiseram trocar o nome da rua que referencia uma das
batalhas da sanguinária guerra contra o Paraguai. Caminhava desde a Cristóvão
Colombo. Uma camiseta branca de algodão guarnece o vestido floral, em
viscolino, de predominância lilás pastel. Tênis branco. Sacola em algodão cru
de alças longas. Urbana, mas excêntrica, paulistana, mas despreparada para a
chuva. Talvez fosse mais funcional se caminhasse pela Rue de Rivoli, ainda
assim, de guarda-chuva. Tendeu ao ponto de táxi, na urgência pluvial é mais
rápido que abrir o aplicativo da Uber. O último carro do ponto saía com outro
paulistano. Abrigou-se no Sebo Nova Floresta entre a farmácia e o Banco.
Tremilica, quase caninamente, para sacudir
alguns pingos de chuva. Inclina a cabeleira marrom, sacode um tanto, afofa
outro tanto, talvez na tentativa de recompor os cachos. Estapeia a sacola de
algodão cru, verifica o interior. Pensou em fumar um cigarro. Apanha o celular,
antes de chamar um carro pelo aplicativo, abre a câmera para uma selfie.
— #Molhada no sebo!
Desistiu de chamar um carro, a chuva encareceu
a corrida. Gláucia, a de olhos glaucos, tem o rosto fino das pessoas finas, a
altura das pessoas finas, tem os dedos finos das pessoas finas, a cintura fina,
a canela fina, os peitos leves, a bunda elegante, não é grã-fina, porém.
— Espero passar a chuva, vou de
metrô, economizo uma grana. Dá pra comprar um livrinho aqui.
A fuligem, o asfalto molhado e o papel velho confluem.
As buzinas e sirenes, Belchior na vitrola e Sade nos auriculares dela confluem.
Apenas um componente deveria ser proibido em sebos pelo departamento de
arquitetura e urbanismo da cidade: piso frio, frio e branco! É funcional, mas não
é fino. O departamento de arquitetura e urbanismo sequer existe na prefeitura
da cidade de São Paulo, isso é falta de finura, Seu leitor e Dona leitora. O
desinfetante recém esfregado no chão de piso frio e branco interditou o Good
Girl Blush da nossa musa temporária.
— Oi, procuro por cronistas!
— Temos muitos, todos estão aqui, Paulo Mendes
Campos, Xico Sá, Antonio Prata, Fernando Sabino... Machado... Drummond... todo mundo.
— Eu gosto de ler em transporte público, então,
tive a ideia de ler crônicas, são de leitura rápida... Ainda não estou muito
familiarizada com o gênero.
— Por que você não escolhe uma coletânea de
crônicas? Assim, entra em contato com os principais textos dos autores mais
consagrados.
Será que ela conhece “O Amor Acaba”? “Em Tempo
de Miojo”? “Amor, Cinema e Telefone”? Eu gosto de uma crônica do Prata, uma em
que a amiga detesta o sabor de peixe e sente gosto de peixe em biscoitos de
polvilho. Eu também sinto gosto de peixe em biscoito de polvilho, principalmente,
naqueles grandes, em forma de bastonetes, feitos e vendidos em padarias. Há dos
anelados industriais, também com sabor de peixe, às vezes. Há também os
globulares, como os da crônica. Essa crônica do Prata me enturmou. Porque
crônica, salvo engano, é para isso, para enturmar.
— Boa ideia! Vou levar este. Tem uma lista
enorme de cronistas. Vi, aqui, que tem Clarice Lispector, Cecília Meireles.
Deve ter uns cinquenta.
— Quarenta e dois. Quarenta e dois cronistas.
Vinte reais. Se me permite, não deixe de ler a do João do Rio e a do Antonio
Prata.
— Tem como fazer um desconto? Tem coisas
escritas pelo antigo dono.
— São vestígios. Essas anotações agora fazem
parte da história do livro. Há de tudo dentro dos livros, nós preservamos.
Bilhetes de amor, lista de compras, lembretes inusitados, comentários sobre a
obra, bilhetes de ônibus, fotografias, dedicatórias, poemas, certidão de óbito,
boletos, manchas de sangue. Vestígios não diminuem o valor do livro, ao
contrário.
Caminhou sem pressa, agora, até o metrô da Sé.
Seguiu pela lateral da catedral, pela calçada do comércio. Fumou um cigarro no
trajeto. Ela pensou que se tivesse optado pela Rua Senador Feijó, teria chegado
mais rapidamente ao metrô, em compensação, não teria parado no sebo. Tudo é
crônica.
Tudo é crônica e eu preciso ajustar este meu
narrador.
Naquele horário, e por ser a Estação Sé, os
vagões do metrô estavam superlotados. Gláucia não pôde abrir o livro. Na
Estação Paraíso, sentou-se. Seguia até o Jabaquara. Eu vou assentar essa minha
musa temporária à Rua São Borja, perto do terminal Jabaquara. Dei a Gláucia um
apelo grego de musa, de olhos glaucos. Na São Borja há uma catedral Copta, não
são gregos, mas o alfabeto copta, à exceção de alguns sinais demóticos, usa as
letras gregas e foi produzido no período helenístico. O bairro Cidade Vargas garante
que Gláucia é de uma classe média, como diria Jessé Souza, remediada. Eu
poderia alocá-la mais para perto da catedral grega no Paraíso, mas é uma região
mais cara. O problema é a incongruência no fato de ela ter pensado em tomar um
táxi lá na Sé para o Jabaquara, sairia uma fortuna. Podemos supor que Gláucia,
a de olhos glaucos, tomaria o táxi para outro destino, mais próximo da Sé. Quando
entrou no metrô, desistiu e foi direto para casa, pronto.
Nossa musa abriu o livro no Paraíso, quinze
minutos para ler alguma crônica. Desconsiderou as numerosas e longas anotações
escritas em grafite pelo proprietário anterior, buscou por uma crônica que
fosse curtinha. “A Arte de Ser Feliz”, Cecília Meireles. Duas páginas. Autora
mulher, isso também influiu. Cecília é contemplativa, intimista, lírica.
— Muito melada! Não gostei. Talvez, quando ela
escreveu, 1966, fosse legal. Hoje, já estou cansada dessas mensagens zens,
ainda mais vindas do mundinho burguês. Só faltou, no final da crônica, ela
fazer uma “publi” de algum curso de yoga.
Dez minutos de caminhada até a sua casa.
Certamente, sua mãe ainda não chegara. A mãe de Gláucia é funcionária pública
bem remunerada. Parou na padaria, precisava de comprar pão. Fez uma horinha
ali, fumou antes de entrar, entrou, pediu um café. Mais uma crônica. Mais uma
que se leia em quinze minutos. Escolhia pelos autores no índice do livro.
Antes, ela anotou suas impressões sobre a crônica da Cecília. Nunca foi seu
costume anotar nas páginas de um livro. Talvez a primeira vez.
— Já está todo rabiscado mesmo!
Ela escreveu assim: “Muito melada! Não gostei. Vai
ver que, quando ela escreveu, 1966, era legal. Hoje, já estou cansada dessas
mensagens zens, ainda mais vindas do mundinho burguês. Só faltou, no final da
crônica, ela fazer uma publi de algum curso de yoga. Estou aqui na padaria e só
o que eu vejo pela porta de vidro é a catraca horrível e a Rua Onze de
fevereiro, feia. (Gláux, 2025)” Dona leitora, Seu leitor, é que, na crônica “A
Arte de Ser Feliz”, a Cecília abre janelas, das diferentes casas onde morou,
que sempre dão para uma linda, delicada e feliz cena. Eu concordo com a
Gláucia, a Cecília é chatinha, chatinha.
Escolheu outra autora. Clarice Lispector. A
crônica “A Descoberta do Mundo”, de 1968. Dessa vez, começou a leitura com uma
caneta na mão. Mais um café. Vontade de fumar.
— “Mais uma dizendo que a vida é bonita. Será
que era a tendência dos anos 60? Eu esperava mais da Clarice Lispector, alguma
coisa mais crítica, mais ácida. Precisa ver também quem selecionou essa crônica
para o livro. Tem isso! Eu não li outras crônicas dela e da Cecília. Vai ver
que o autor da seleção quer desvalorizar as mulheres! Eu não duvido. Humberto
Werneck, depois vou pesquisar. (na padaria, Gláux, 2025)”
Em casa, deixou o livro à mesa da cozinha
juntamente com os pães. Acendeu um cigarro, abriu uma cerveja. Preparava o
jantar quando a mãe chegou. Depois dos cumprimentos carinhosos, Dona Raquel
sentou-se à mesa, com uma xícara de café, também acendeu um cigarro. Soltou o
sutiã por baixo do tailleur mocha mousse, descalçou os sapatos, deu uma
tragada, soltou as pernas a um ângulo doméstico.
— Nossa, mãe, você está gostosona...
— Livro novo? Este eu ainda não tinha visto.
— Novo, velho. Comprei num sebo lá na Sé. Fui
me encontrar com a Luli no Largo São Francisco, na volta passei no sebo. Já li
duas crônicas, uma no metrô, outra na padaria. A Luli te mandou um beijo. Tem
algum guarda-chuva pequeno aqui em casa? Um que caiba na minha bolsa...
— Deve ter lá no armário da lavanderia. Quais
crônicas que você leu? Você viu as anotações que tem no livro?
— Li uma da Clarice Lispector e uma da Cecília
Meireles. A da Clarice é melhor, mas não gostei muito de nenhuma das duas. Até
anotei minha opinião no fim das duas crônicas. As anotações de caneta são
minhas. Sim, eu vi que tem um monte de coisas escritas pelo antigo dono ou
dona.
— Então você não passou nos cursinhos pra ver o
preço das mensalidades?
— Ah, mãe, amanhã eu vou. Vou com a irmã da
Luli. Tô com uma preguiça de fazer cursinho, mas não vai ter jeito.
— Eu também não gosto da Clarice, não sei por
que falam tanto. Já li quase tudo, ou tudo, dela. É legal, mas é só isso.
Cecília, nunca nem tentei, não é do meu gosto. Seu pai adorava a Clarice
Lispector. Depois que ele morreu, vendi quase todos os livros da biblioteca. Me
arrependo muito! Até hoje, não sei por que eu fiz aquela merda, acho que eu
tava com raiva.
— Ele também anotava coisas nos livros?
— Não são anotações, Gláux!
— Como assim?
— Os textos neste livro. Não são anotações.
Seguiu-se alguns momentos de silêncio. Raquel
lia. Gláucia já terminava o jantar. Dispunha a mesa. Espaguete à bolonhesa,
file de frango, salada, pão. Duas cervejas. A cozinha esfumaçada pela fritura
dos filés. Gláucia abriu mais a janela, olhou para o quintal dos fundos, um
pequeno pátio vazio e cimentado, varais vazios, uma vassoura velha escorada à
parede, ficou com raiva novamente da crônica da Cecília.
— Você já fez yoga, mãe?
— Deixa eu acabar de ler isso...
Entre uma garfada e outra, entre um gole e
outro de cerveja gelada, Raquel lia com atenção o texto escrito a grafite entre
as páginas da coletânea de crônicas. Alguns trechos já se apagavam um tanto,
nada que impedisse a leitura.
— Gláux, que texto divertido! É uma crônica
escrita pelo dono anterior. Chama-se “Hoje, no bar do Marquinho”. É
profissional! E tem outros pequenos textos espalhados...
— Quem será? Tem assinatura?
— Colocou a data, 9/10/24, ano passado. Tem só
as iniciais do nome, M. C.
— Será que é mulher? Maria Conceição? Márcia Cardoso?
Michele...
— É homem! Pela crônica que escreveu... O
personagem é masculino, o texto é masculino. M. C., são as iniciais de Mário
Conde. Nove de outubro é a data de nascimento de Mário Conde.
Mário Conde? Raquel, então, é leitora de
Leonardo Padura! Seu leitor, Dona leitora, Mário Conde é um personagem do
escritor cubano, Mário é um tenente detetive da polícia de Havana. Conhecem a
quadrilogia “Cuatro estaciones en La Habana”? Deu-me até vontade de promover
Raquel, a de olhos glaucos, à condição de nova musa temporária.
— Mário Conde?
— Tô brincando! Você também não entende nada,
hein?! Fiquei curiosa agora, quem será?
— Mas quem é Mário Conde, dona Raquel?
— Ah, olha aí no seu google!
— Vou ler em voz alta, quero sentir a
musicalidade, o ritmo. Hoje no bar do Marquinho
Vocês já perceberam que eu gosto de arroz-feijão-ovo-salada.
Escutem essa:
Hoje, umas oito pessoas sentaram-se à mesa quase ao lado da minha.
Funcionárias de alguma loja ou escritório da região – algumas vestiam calças
brancas... devem ser da loja que banha e tosa animais domésticos, nova aqui na
rua.
O bar do Marquinho é um bar, os talheres, a louçaria, as mesas e
cadeiras e o ar que pouco circula são dos anos oitenta. Os jovens de mente
colonizada dirão que é “roots” ou “raiz”, mas não é nada disso. É um bar e é do
Marquinho. Às vezes, um bar é só um bar.
Os frequentadores: eu, taxistas, funcionários da Enel, da Claro, da
Vivo, da Sabesp, da Comgás, porteiros, passantes etc.
Os mais velhos disputam um lugar onde se possa sentar de costas para a
parede e de frente para a porta. Pura sabedoria. Não vai acontecer nada, mas é
importante mostrar sabedoria. A melhor mesa é aquela junto à janela e atrás das
duas geladeiras, quem se senta ali é o Seu Francisco do táxi, ali ele é o
último a ser divisado por quem adentra e bastaria um pulinho, zás, já estaria
na calçada.
É preciso saber sentar-se: senta-se, olha-se vagarosamente ao redor para
todos com cara de mau, balança-se levemente a cabeça, um movimento vertical
quase imperceptível, quando reconhecer um rosto, depois se retoma a varredura
por mais uns dez segundos.
Marquinho está ali no canto, com o pano de prato no ombro desde 1986,
olhando tudo com cara de Ernest Borgnine. Ele espera acabar o ritual, vem até à
mesa e diz “Você quer o quê?”
No bar do Marquinho, ninguém fala muito acima dos 40 decibéis – se você
não sabe, 30 decibéis é o recomendado para conversação em bibliotecas, 50
decibéis é a conversação normal.
As pessoas que se sentaram à mesa ao lado destoavam a 60 ou até 70
decibéis. Uma delas ria a 80 e dava um grito agudo a 100 antes de iniciar a
gargalhada.
Parei de comer, encarei Marquinho. Marquinho olhou para Seu Francisco do
táxi. Seu Francisco cutucou Seu Pedro porteiro. Dona Soraya do edifício Dallas
espumou. Todos encaramos Marquinho, enviamos o olhar de “Nunca mais almoçaremos
aqui!” Marquinho nos enviou o olhar de “Vou fechar este bar, vou voltar pra
Saint Louis!” – Saint Louis é o edifício em que ele tem um apartamento, fica em
Peruíbe.
É agora que as coisas se dão:
Marquinho veio atender à mesa estrepitosa. Era aquele povo que não sabe
o que quer, um tempão para escolher entre os numerosos pratos do cardápio de
hoje: feijoada ou picadinho. Uma gritaria. E Marquinho firme na panca
borgnineana.
Uma pessoa esganiçou a 70 decibéis “Tem ovo? Acho que vou pedir ovos
fritos!” Gritos de escárnio, gargalhadas se seguiram, especialmente daquela que
grita agudamente a 100 antes de gargalhar.
Nem levantei a cabeça, continuei a misturar a gema mole ao arrozfeijão.
Seu Francisco e Seu Pedro colocaram imediatamente as mãos para baixo do
tampo da mesa. Eles não têm armas, no bolso, têm alguma bala de hortelã que
Marquinho deu a eles na semana passada. Mas, sabem como é, a cena precisa de
ser bem composta.
De um segundo para o outro, os quase 80 decibéis daquela mesa caíram
para 20. Foi de um segundo para o outro. Viram o meu prato!
Fizeram o pedido a 40 db. Ernest voltou lá para o canto. Inclinou
levemente a cabeça para mim. Dona Soraya me deu uma piscadela de zap de paus.
Seu Francisco do táxi, a 55 db, atuou “Ô, professor, não tinha lhe visto, como
vai seu filho?” Seu Francisco me chama de professor porque pensa que isso me
confere alguma autoridade no bar, mas o bar é do Marquinho.
O silêncio voltou, pelo menos até a hora em que terminei de almoçar.
Marquinho olhou para nós todos com aquele olhar de “É... dá pra aguentar
mais uns anos por aqui!”
Raquel pegou outro cigarro para outra cerveja. Sorria,
deliciada com o cigarro, com a cerveja, com a crônica. Estava tudo ótimo, o
jantar, a conversa com a filha. O fim de semana se iniciou como há muito não
acontecia, com poesia, humor e um retalho de mistério.
— Gostei mais do que das duas que eu li. Quem é
Ernest Borgnine?
— Já sabemos algumas coisas sobre o autor.
Ernest Borgnine não é uma referência de jovens. Se o autor respeitou as
características de uma crônica, então, o Bar do Marquinho de fato existe, o
autor, M. C., é homem e professor. Eu chuto, uns cinquenta anos de idade. Tem
ares de paulistano.
— E se eu te conheço bem, dona Raquel, você vai
querer descobrir quem é!
— E a senhorinha vai me ajudar! O que mais você
acha que podemos descobrir só olhando essa crônica? Vou chamá-lo, por enquanto,
de Escritor Marginal, porque ele escreve às margens.
— Agora vou tomar banho, mãe. Já estou quase
fedida. Estou cheirando à rua, cigarro, livro velho, fumaça de carro e fritura.
Vou jogar no grupo do WhatsApp... ver se alguém conhece o tal do Bar do
Marquinho.
— Duvido, não parece ser um bar que vocês
frequentem, mas de repente alguém mora perto do bar... Você comprou o livro na
Sé, será que o bar é lá pro centro?
— Olha aqui na internet, dei uma busca em “Bar
do Marquinho”.
Gláucia entrou no chuveiro. Raquel sentou-se no
vaso sanitário com o livro e o celular. Achou um “Bar do Marquinho” em Diadema,
nada que se assemelhe ao bar da crônica. Procurou pela crônica também, sem
resultados. Sua intuição dizia que era um bar mais próximo ao centro da cidade,
que o bar era do Marquinho, mas não era o nome oficial do bar.
Sei que vocês já imaginaram que o escritor
marginal pudesse ser o pai da Gláucia, depois desistiram dessa ideia clichê ao
saber que a crônica datava de 2024. O pai dela, ao que parece, já morreu faz
tempo. Sei também que agora vocês imaginam que o marginal seja eu, o narrador.
Também não, eu sei só o que Gláucia e Dona Raquel pensam e sentem, o que veem e
dizem, não conheço o escritor marginal. Continuemos nossa investigação.
Gláucia-debaixo-do-chuveiro, não parecia mais
tão interessada no assunto. Raquel foi para o outro banheiro, banhar-se também.
Levou o livro, deixou-o em cima da cama desarrumada desde cedo, roupas
espalhadas, uma bagunça muito bonita, agora ainda mais com o livro, com o tailleur
mocha mousse, as peças íntimas em terracota, com a bolsa e o maço de cigarros. Se
acrescentarmos um pedacinho final, um fade out, do corpo desnudo de Raquel a
entrar no banheiro, ao fundo do quarto, teríamos uma linda capa para um romance
contemporâneo de Annie Ernaux ou para uma coletânea de cool jazz. Já posso
ouvir o trompete e a voz de Chet Baker em I’m a fool to want you. Dona leitora,
Seu leitor, ouçam I’m a fool to want you com o Chet enquanto releem este
parágrafo, veja como tenho razão.
Preciso ajustar esse meu narrador!
— Cadê o livro, mãe?
— Tá na cama. Entra! Estou no banho.
— Esse perfume Flor de Carambola é delicioso,
me empresta um pouco pra amanhã? Amanhã vou perambular pelos cursinhos.
— Veja o que já temos: homem, pelos rituais
masculinos realizados no bar; ele é de classe média, mas se junta aos de outras
classes com tranquilidade, é um cara descolado, popular; a referência a Ernest
Borgnine e o clima de sallon, que ele imagina na crônica, lhe põem na condição
de +50, ou melhor, entre os 45 e 55 anos; deve ser vegetariano, pelo prato de
arroz, feijão, ovos e salada; certeza de que é professor, não só porque é
chamado assim na crônica, mas também pelo domínio fino da língua, um cara das humanas,
talvez professor de língua portuguesa ou de filosofia; é afetuoso e irônico,
sem frescuras...
— Sei, e você está apaixonada! Repete o que
você falou, vou anotar na caderneta pra gente não esquecer. Você parece aquelas
detetivas que traçam perfis de psicopatas. Bom nome, Marginal!
— Ele não quer ser famoso, ele quer ser lido...
Eu aposto que ele escreveu outros textos em outros livros que ele vendeu nos
sebos! Ele deve voltar sempre à cena do crime, melhor, à cena da Arte. É um
artista fantasma, o Marginal. Em que sebo você comprou mesmo este livro? Ele
deve passar por lá com frequência. Ali tem, além do Nova Floresta, o Brandão, o
Messias, tem um outro na Quintino Bocaiuva, acho que é o José de Alencar, mas
há outro lá também. Ele deve ter deixado um livro em cada um desses sebos. Tá
anotando?
— Esqueceu de dizer que ele tem um filho! Na
crônica, o cara do táxi pergunta pelo filho dele. É casado, mãe!
— Divorciado! Divorciado! Não vai sair hoje?
— Não! Talvez amanhã...
Se recolheram nesse ponto. Cada uma em seu
quarto. Raquel queria ler o livro, mas Gláucia o levou para ler mais uma ou
duas crônicas antes de dormir. Raquel se contentou com um pouco de música,
depois com um episódio do podcast História Pirata, ciborgues e transumanismo, com
alguns cigarros.
Gláucia, de caneta em punho, leu a “Era do automóvel”
do João do Rio e “Bar ruim é lindo, bicho” do
Antonio Prata. Câmera aberta:
— #LeituraNoturna
Dessa vez gostou. Anotou que o Prata escreve
como ela gosta, achou parecido, de alguma forma, como o Marginal. Achou mais
uns pequenos textos do Marginal, nada que passasse de um parágrafo, talvez
rascunhos não desenvolvidos de seus próximos textos ou de textos que não deram
muito certo. Deixou essa informação para o dia seguinte, não queria incomodar a
mãe, já era tarde. Gastou uns quarenta minutos náufragos no Instagram, trocou
algumas mensagens. Por fim, abriu a aba anônima do navegador...
Raquel dormiu. Sonhou com Mario Conde, na
verdade, com o ator que interpretou o tenente detetive na série Quatro Estações
em Havana, Jorge Perugorría Rodriguez. Acordou agitada às três horas da manhã,
a Dona leitora deve compreender bem. Foi à cozinha beber um pouco de água
gelada, aproveitou e saboreou duas uvas verdes, dessas de polpas entesadas e dulcíssimas
que inventaram para se comer de madrugada, em pé, em frente à geladeira. Fumou
um cigarro no quintalzinho dos fundos.
A cidade amanheceu num sábado, sem previsão de
chuva. Um lindo céu cinza, sarapintado de manchas azuladas. No Hospital das
Clínicas, São Paulo foi diagnosticado com cianose! Raquel foi a primeira a
acordar, serviu o café da manhã para o bichano da vizinha, ele não falta um
sábado.
— Oi, mãe, vou comer rapidinho, hoje vou aos
cursinhos...
— Calma, para que a pressa? Não esquece de ir
àquele da Paulista, o da escadaria. Lá...
— Eu achei mais uns textos do Marginal. Todos
curtinhos. Marquei as páginas.
— Até sonhei! Sonhei com o M. C., Mario Conde.
Eu reparei mesmo que havia mais textos, mas fiquei presa àquela crônica. E,
Glaucilene, você me ouviu? Vai até o cursinho da Paulista, no prédio da Gazeta,
porque lá...
— Ouvi,
Dona Raquelyanne! Eu sei, eu sei... Se vai ler o livro, olha a crônica do
Antonio Prata e a do João do Rio, são maravilhosas. Quero ler mais coisas do
João do Rio, eu nem sabia da existência dele, o primeiro parágrafo da crônica
dele é lindo demais, “A era do automóvel”. A crônica do Antonio Prata, “Bar
ruim é lindo, bicho”, se parece muito com a do Marginal, e fala de bar também,
os assuntos são diferentes, mas... sei lá... achei parecidas, deve ser o
estilo. Deixei marcadas também essas páginas. Olha este textinho do M.C. que
achei ontem:
“Hotel Prins Hendrik, Amsterdam. De frente para a
Estação Central, de costas para o mundo. O chão está liso e o céu, áspero. Ela
me puxa de volta e derruba meu Noilly Prat.”
— Que delicadeza! Você procurou pelo hotel no
google?
— Claro! Já aprendi com você a puxar sempre o
fio do novelo. Foi nesse hotel que morreu um músico de jazz... Espera um pouco,
eu anotei o nome aqui... Chet Baker. Ele caiu da janela do terceiro andar, foi
em 1988.
— Ah, agora fez mais sentido. Que delicadeza!
Na ficção, alguém salva o Chet... Ou será que M. C. se hospedou lá e reviveu
poeticamente o desastre? Delicado. Sensível. Prosa poética. Jazz em prosa. Deu
pra ouvir o trompete esvoaçante. Gláux, você reparou nos contrastes? “Hotel...
mundo”, “de frente... de costas”, “chão... céu”, “liso... áspero”; “puxa...
derruba”. Noilly Prat, nunca bebi, mas vou providenciar... É um vinho?
Raquel, agora sozinha em casa, lavou-se,
penteou-se, vestiu-se, perfumou-se. Maquilagem levíssima. Decidiu que sua
atividade matutina seria ir aos sebos no entorno da Sé. Levaria o livro,
perguntaria sobre o Marginal. Eu não ia falar nada, mas Raquel está mesmo
linda, precisa de ver! Um short jeans sóbrio. Camisa branca de linho, larga,
mangas longas dobradas. Um Ray-Ban Round Metal, rose gold, lentes cinzas. Tênis
branco. A única peça de que discordo é aquele colar de pedras enormes, nem sei
se é pedra mesmo ou alguma resina, modinha entre psicólogas e psicanalistas,
que se vê no pescoço de Maria Homem de Melo ou de Maria Rita Kehl e de todas as
suas imitadoras (é o equivalente feminino daquela cotoveleira de couro nos
paletós de velhos intelectuais). Acho até que já vi Marilena Chauí com um colar
desses, e com a cotoveleira também. Sua cabeleireira disse que a cor de seu
cabelo, agora, é salt and pepper, para mim é o velho e bom grisalho. Mandou uma
mensagem para a amiga.
— Oi, Miriam, vamos perambular pelos sebos lá
da Sé? Vou sair em quinze minutos...
— Claro, eu tava mesmo pensando no que eu faria
hoje. Nos encontramos no metrô do Paraíso? Com que roupa você vai?
— Ah, de short jeans e camisa branca, meu
básico de sempre. Na entrada do paraíso, então. Meia hora, eu chego lá. Tenho
uma história pra te contar!
Miriam Elbaz, a de cabelos crespos, é uma
personagem secundária, leitor e leitora, está aqui apenas para que a nossa nova
musa temporária não vá sozinha aos sebos e, claro, para nos revelar mais sobre
nossa protagonista. É uma amiga antiga de Raquel, a de olhos glaucos, estudaram
juntas no colégio e na faculdade de jornalismo da Cásper Líbero.
Raquel enfiou na bolsa a caderneta, aquela em
que Gláucia anotara o perfil de M. C., e uma caneta preta de ponta média. Uma
detetive. Uma jornalista. Chamou um carro pelo aplicativo. Encontrou a amiga à
boca do Paraíso. A caminho do trem, contou toda a história a Miriam, com
detalhes que eu mesmo não ousei contar aqui.
— Até sonhei que...
A primeira parada foi no Nova Floresta com
aquele piso frio e branco. Neste ponto, Miriam já estava quase tão envolvida
quanto a amiga Chelly. Chelly (pronuncia-se Keli) é o diminutivo carinhoso de
Rachel, leitores!
— Vamos puxar um fio desse novelo, Chelly!
— É assim que se fala, jornalista Mira! Trouxe
uma caderneta!
— Mas não deixe o pessoal do sebo ver o
caderninho, podem se intimidar!
Para a atendente do nova Floresta:
— Bom dia! Minha filha comprou este livro aqui,
foi na sexta-feira. A Gláucia.
— Me lembro dela. Algum problema?
— Não, ao contrário, amamos o livro. A questão
é que dentro do livro, olha aqui... Tem esses textos escritos pelo antigo dono
do livro. Ele assina com M. C. A senhora tem ideia de quem ele seja?
— Meu nome é B. Não precisa me chamar de
senhora.
— Raquel! Ela é a Miriam.
— Não, não tenho ideia de quem seja M. C. Sua
filha, de fato, tinha me mostrado que o livro possui muitas anotações. Mas por
que vocês querem saber de quem era o livro?
— Eu achei admiráveis os textos e anotações que
ele escreve. É um escritor dos bons, prateleira de cima. Pensei até que pudesse
ser alguém famoso.
— Eu devo dizer que não sei quem é, mas, mesmo
que eu soubesse, acho que eu deveria preservar a identidade dos clientes. Vocês
me entendem, né? O que posso fazer é verificar aqui no sistema quando este
livro deu entrada aqui na loja. Tudo bem?
— É um estranho caso de amor platônico, B.
Minha amiga Raquel está platonizada...
— 22 de novembro de 2024. Só tenho essa
informação, sinto por não poder ajudar mais. Mas ele é tão bom assim?
Raquel, que já estava sem os óculos escuros,
conta a história da morte de Chet Backer, depois lê o trecho poético sobre o
Hotel Prins Hendrik.
— Muito elegante! Eu amo Chet Backer. Temos
alguns álbuns dele aqui.
— Há uma crônica completa. Quer que eu a leia?
É um pouco longa...
— Claro,
isso está divertido...
B. passou café para três xícaras. Raquel leu a
crônica com a desenvoltura de uma jornalista que quase já sabia de memória o
texto, baixava os olhos para o texto de quando em quando para não perder o fio
da leitura.
— Chelly, você me disse que a crônica era boa,
mas é profissional mesmo!
— Também achei profissional, você tem razão em
pensar que M. C. está na prateleira de cima!
Em poucos minutos as três mulheres,
platonizadas, já estavam folheando outros livros de crônicas na esperança de
achar mais algum texto do Marginal. O fio do novelo fora puxado. Chet Backer
flutuava no pick-up. Faltou apenas o Noilly Prat. Aquele piso bem que poderia
não ser branco e frio. Se fosse de Vermelhão, mesmo que simples, seria, além de
funcional, mais bonito. Vermelhão é um piso antigo, leitores, de cimento
queimado e tingido de vermelho com corante em pó chamado Xadrez.
Gláucia e a irmã da Luli decidiram pelo
cursinho no prédio da Gazeta. Enquanto admiravam, no MASP, a mostra “Histórias
da Ecologia”, combinaram que prestariam vestibular para o curso de jornalismo.
Câmera aberta: #EscadariaGazeta, #Masp, #Jornalistas.
De volta ao sebo. Mas, agora, no Sebo do Messias.
Do falecido Messias (1941/2024).
— Vocês duas não vão acreditar!!! Dona Raquel,
eu mesmo não estou acreditando!
— Achou alguma coisa?
— Achei mais do que alguma coisa. Um Roniwalter
Jatobá, “Crônicas da vida operária”.
— Roni o quê?
— Roniwalter. Roniwalter Jatobá! Olhem as
anotações, a mesma letra, as mesmas iniciais M. C. E não é só isso...
— Não acredito, Chelly! Você está certa, o
Marginal espalhou livros cheios vestígios pelos sebos da região.
Agora é aquele momento do texto em que o
narrador paralisa a ação. Por meio de descrições, ações paralelas, asserções
filosóficas, críticas etc., ele faz a manutenção do suspense e também pode dar
um salto espacial ou temporal – como aconteceu ainda há pouco com a Gláucia no
MASP, foi tempo suficiente para Raquel mudar de sebo e recontar a sua história
para outro atendente. Sinto muito, leitora, sinto muito, leitor, mas é
inevitável que ele interrompa. Talvez nosso narrador use o Roniwalter como
subterfúgio. Vejamos.
O rosto de Raquel enrubesceu. Não conteve o
sorriso que, de início, foi o de sabichona, mas progrediu para o de felicidade,
o mesmo de quando, há pouco, viu na rede social que sua filha será jornalista.
Com as duas mãos, alisou sua cabeleira salt and pepper para trás, como quem precisa
se livrar de distrações. Os olhos remoçaram 30 anos. Os sonhos remoçaram 30
anos. Conteve-se para não reagir muito abruptamente. Respirou. Olhou para
Miriam.
— Me deixa ver!
“Se
carecesse do monturo de conhecimentos, as algemas do mundo, cujos gases
tornaram cinza seus olhos e enrudecidos quaisquer ângulos de sua fisionomia,
tudo seria desculpável: o penico, o amontoado de cascas de laranja para acender
o fogão a lenha, o biotônico, o emplasto, o dinheiro enterrado, a estrela se
sansalamão na porta... O ciclo que se poderia confundir com a virtude da
fidelidade, a carestia que poderia ser tomada por humildade, a solidão e a
barba que os incautos aceitam como ranço de sabedoria deram a Petrônio Inço a
malha de ouro que encobriu o medo, a avareza e a soberba.”
— É ele, Chelly? Deixa eu ver também?
— A letra é a mesma. O estilo do texto é
diferente. Mas a letra e assinatura são dele. É do meu Marginal! Eu vou levar o
livro. Qual o preço?
— Espera, eu disse que tinha mais uma coisa! Eu
me lembro dele. Quer dizer... do rosto. Espera um pouquinho, vou te mostrar uma
coisa...
O livreiro foi para os fundos da loja.
— Mira, estamos prestes a resolver o caso!
— Ou uma parte! Não se empolgue...
— O vendedor está demorando... preciso fumar
agora.
Deram uns poucos passos para fora da livraria.
Raquel e Miriam se aliviavam. Raquel mostrou a foto da filha que comunicava seu
futuro de jornalista. Gláucia e a irmã da Luli na saída do Masp encontraram
acidentalmente dois amigos, foram para trás do vão livre do museu fumar um
baseado. “Da flor!” disse um deles. O leitores podem imaginar que Gláucia
aproveitava o tempo “da flor” para narrar aos amigos sobre a aventura livresca
da mãe, mas não foi assim. O grupo de amigos falava sobre as futuras
jornalistas.
O livreiro materializou-se com um livro e um
cigarro nas mãos ali na calçada.
— Olhem este livrinho. “Finismundo, a última
viagem”. É do poeta e tradutor Haroldo de Campos. Não é o livro mais raro que
temos, mas não é muito fácil de encontrá-lo hoje em dia. No finalzinho do ano
passado, um sujeito veio aqui vender uns livros. O “Crônicas da vida operária”,
do Roniwalter Jatobá, e este do Haroldo de Campos. Eu me lembro porque não é
toda hora que Finismundo aparece por aí. Tive de negociar com o sujeito por um
bom tempo. Ele conhece muito bem o mundo dos livros. Disse que possuía em sua
biblioteca mais dois exemplares do Finismundo, um deles autografado pelo
Haroldo. Chegamos a um valor razoável. E foi isso! Há apenas um grifo, veja,
nestes versos:
O ínvio-obscuro
caos pelaginoso
até onde se esconde a proibida
geografia do Éden – Paradiso
terreno: o umbráculo interdito:
a lucarna: por ali
istmo extremo ínsula
se tem acesso ao céu
terrestre: o transfinito.
— E... e... como ele era? O rosto... o corpo...
— Bom... ele tem a minha altura, 1,75 m,
parecia ter em torno dos 50 anos, nem gordo nem magro, barba grisalha, quase
branca, é um cara desenvolto, como eu já disse, culto... ah, tinha um vozeirão
grave, fumante... Jovial, se me lembro bem, estava de jeans e camiseta preta sem
estampa.
— Mas o nome? O senhor não se lembra mesmo? O
senhor não registrou em algum lugar? Há alguma filmagem das câmeras de
segurança...
— Não lembro! Não há gravações. Só me lembro
disso.
— Alguma marca no rosto, nos braços, nas mãos?
— Não me lembro, foi no final do ano passado.
Ele não veio mais. O cabelo era bem grisalho nas laterais, curtinho, caído pra
frente. Tinha uma bolsa... de couro, tiracolo, sabe, como na década de 80, mas
não era do tipo executiva, era dessas que a gente compra na feira de artesanato
da República. Sei lá...
— Se o senhor fosse dizer que o M. C. se parece
com alguém famoso... quem seria?
— Não sei... talvez... sei lá, a senhora
conhece o Slavoj Žižek? Pensando bem, parecia um pouco. Mais magro talvez... Ou
pode ser imaginação minha.
— Conheço!
— MANUEL!!! Era Manuel! Sabia que eu ia
lembrar. Manuel! Minha memória é muito boa, hein, pode falar!
Então, sabemos que o escritor Marginal é
Manuel. Sinceramente, leitores, eu estava torcendo para ser Mário. Mário Conde.
Mas a vida é um “caos pelaginoso” sobre a qual a gente escreve, pensa,
romantiza etc. na tentativa de lhe dar sentido, sentido humano, na procura de
uma “lucarna” para o “transfinito”.
Sinto muito, leitores, sei que olharam os
versos de Haroldo de Campos apenas superficialmente, depararam-se com palavras
estranhas e seguiram adiante a leitura, mas terão de voltar lá, recorrer ao
dicionário, procurar na internet um resumo esclarecedor sobre o Finismundo.
Tudo é crônica porque tudo é vestígio. Rubem Braga dizia que “se não é agudo, é
crônica”. Este meu narrador me surpreendeu.
— Manuel C. Você está bem, Chelly? Chelly!
Chelly!
— Sim. Mais ou menos. Olha, quero levar esses
dois livros.
— Não posso vender o Finismundo por menos de
200 reais!
— Não importa. Vou levar os dois. E fique com o
meu contato, se o tal Manuel C. aparecer por aqui...
Eu iria direto ao Instagram, procuraria por um
Manuel C. com cara de Žižek. Mas não foi assim que reagiu Raquel.
— Vamos ao sebo do Brandão?
— Não! Por hoje chega, Mira! Estou exausta.
Exausta e faminta!
As amigas voltaram-se para a direta, acenderam
mais um cigarro, avançaram mais uns sete, ou menos, metros, Padaria Santa
Tereza, a mais antiga de São Paulo, dizem que a mais antiga do Brasil, desde
1872. Chama-se Santa Tereza porque, na época do Império, esse era o nome da rua
– hoje, Praça João Mendes. Começaram o almoço, no segundo andar, com e sanduíche
SHAP e cerveja.
Raquel não parava de olhar para todos os cantos
do restaurante, como se vigiasse ou se sentisse vigiada. Ela não estava bem.
— O que está te incomodando?
— Não sei! Estou esvaziada. Já não sei mais por
que corri tanto atrás de saber quem era o Marginal. Quer saber, os textos dele
nem são tão bons. Eu mitifiquei a figura do Manuel C. Agora que sei que é um
cara comum, uma pessoa de verdade... Não sei o que eu buscava...
— Típico... Essa é você desde sempre. Me lembro
de quando você conheceu o Arnaldo.
— Ando mesmo pensando nele... Gláucia se
matriculou no cursinho, ano que vem vai fazer jornalismo... O tempo passou. Vou
aproveitar essa minha onda literária e recompor a biblioteca lá de casa. Você
sabe, quando o Arnaldo morreu, a gente se mudou de casa, me desfiz da
biblioteca do Arnaldo. Eu estava com raiva, com medo, a Gláux tinha dez
aninhos. Fiquei apavorada.
— Sei... e depois desses anos todos, você
sonhou de novo. Acordou de novo! Meu casamento está uma merda... a culpa é
minha, eu sei. Estou vendo a hora que o Charles vai me pedir em divórcio. Nós
duas precisamos voltar a desejar, a ter nossas identidades de volta. A gente se
apagou. Ficamos velhas e chatas, amiga. Duas acomodadas, porque acomodadas dói
menos... sabe quando a gente mexe em coisa velha? Na mangueirinha sanfonada da
máquina de lavar roupa, e o plástico se craquela todo, e a gente pensa: era melhor
não ter mexido...
— A gente craquelou... mangueirinha sanfonada,
Miriam? Não tinha uma metáfora melhor, não? Sua tosca!
— É que eu mexi na mangueirinha da máquina
ontem. Agora to sem máquina de lavar... Até o Charles tomar providência... já
viu, né?! Vamos passar ali na rua Riachuelo, tem um depósito lá, deve vender a
tal mangueirinha...
— Vamos! Vamos começar o nosso conserto pela
sua máquina (do mundo) para que, no mínimo, ela não lhe sirva mais de metáfora
pra nada!
Dona leitora, Seu leitor, eu esperava a deixa
para voltar. Eu pretendia fazer a relação com A Máquina do Mundo, do Drummond,
mas Raquel se adiantou. Eu é que não vou impedir a personagem de falar, mas eu
faria uma relação bem melhor com o poema: tivemos “à boca do Paraíso” lá na
cena do metrô, tivemos “Paradiso” e “transfinito” nos versos de Haroldo, agora
A Máquina do Mundo etc., vestígios não faltaram para os leitores sacarem que os
textos do Marginal serviram de “lucarna” para Raquel. Bom, agora que ela se
adiantou e estragou tudo, só me sobrou a parte em que eu digo: o conto iniciou
e terminou na Rua Riachuelo ou Rua da Casa Santa, ali, de fato há um depósito,
mas sei que não vendem a tal mangueirinha sanfonada, Raquel e Miriam seguiram
“vagarosas de mãos pensas”.