“Bom dia!” não funciona mais na comunicação
social, grupal. Repararam? Precisa ser “Bom dia a todos!”, “Bom dia a todos e
todas!” “Bom dia a todas e todos!” “Bom dia a todas, todos e todes!” O simples
“Bom dia!” deixou de exercer a função fática – função da linguagem que serve
para abrir, prolongar e fechar um canal de comunicação, disse Roman Jakobson. Tem
mais, se se tratar de uma publicação permanente em uma rede social, o “bom dia!”
deverá ser seguido por “boa tarde!” e por “boa noite!”.
Sou professor e já trabalhei em salas de aula
com mais de setenta alunos, não raro, com cem mais ou menos. Diante de um número
grande de pessoas, algo acontece: o professor, o palestrante, o apresentador, o
artista etc. perdem a certeza de que funcionaram o “olá!”, o “bom dia!” e afins.
Foi suficiente? – ele pensa. É muita gente! Todos me ouviram? Todos se sentiram
convocados a me ouvir? A atenção de todos foi requisitada? O canal de
comunicação foi aberto de modo simpático?
Os professores tentam resolver essa insegurança:
— Bom dia, garotada!
— Bom dia, pessoas!
— Bom dia, gente!
— Bom dia, pessoal!
— Bom dia, galera!
— Bom dia, meu povo!
— Olá, olá, olá! Bom dia! Bom
dia! Galera!!! Bom dia!!!
Eu tentei de tudo. Não somente para chamar a atenção
do público, mas, principalmente, para eu ter a certeza de que o processo comunicativo
tinha se iniciado. Acabei ficando com o “Bom dia! Bom dia! Bom dia!” Em que o
primeiro “bom dia!” é mais esticado, “Bôômm diiiiiaaaa!”; o segundo e o terceiro
são rápidos. Fica assim:
— Bôômm
diiiiiaaaa, bom dia, bom diaa!!!
Até chegar a essa fórmula, eu tentei muitas.
Tentei o bordão presidencial iniciado por José Sarney, usado posteriormente
também por FHC e Dilma: “Brasileiros e brasileiras, bom diaaa!”. Experimentei
algum gracejo como “Crianças brasileiras do Brasil, bom diaaa!” Quando eu era
aluno de cursinho, um professor usava “pessoas”. Achei inusitado na época,
ninguém ainda tinha me chamado de pessoa. Propus essa também, mas sem muito
sucesso. Foi indo assim, até que me satisfiz em repetir por três vezes o cumprimento.
Três é um número bom, diria algum cabalista: “bom dia” é igual a 8, repetido 3
vezes é igual a 24 que dá 6 – o número da comunidade, da família, das relações
humanas harmoniosas etc. Está rindo? Se você tivesse que se comunicar
diariamente com uma multidão, você também apelaria! Preciso lembrar que Pedro
negou Cristo por três vezes. Como fica o bom número 3 nesse caso? Repetir por
três vezes uma sentença parece mais um fenômeno linguístico de ênfase do que uma
mágica cabalística. Minha mãe, e a sua também, repete uma sentença por duas
vezes e diz:
— Se eu tiver que falar mais
uma vez...
Três é um número bom, nem Jakobson nem Saussure
pensaram nisso! Mas eu escolhi essa fórmula porque me recuso à redundância do “a
todos”. “Bom dia a todos!” Se se diz “bom dia!” é para todos que ouvirem, caso
contrário, eu me dirigiria especialmente a uma pessoa ou outra. Eu sei, eu sei,
que é ênfase, que o “a todos” é ênfase, mas também sei que, a quase todos os
desvios, se desculpam pela “ênfase”. Não gosto! Três vezes “bom dia!” é ênfase,
isso, sim! Se a mãe usa a ameaça da terceira, é porque funciona.
Voltemos aos penduricalhos políticos!
Quem popularizou isso no Brasil, você querendo
ou não foi o José Sarney. Lá pelos idos de 1985. Duvido que fosse pela
inclusão, era mais para macaquear o “Ladies and Gentlemen”. Em 2010, acadêmicos,
ativistas e políticos estadunidenses mandavam um “Good morning, people of all
genders!”. A França e a Espanha, já na década de 80, ensaiavam o “bom dia!” inclusivo,
político. No Brasil, em 2023, o ministro Alexandre Padilha iniciou o discurso
de posse com “Boa tarde a todas, a todos e a todes!” Perto de 1997, eu fazia
meu segundo curso universitário, filosofia, alguns professores nos comunicaram
que, malgrado deles, a universidade passava a exigir a inclusão do gênero
feminino nos discursos de sala de aula, deviam se referir a alunos e alunas
durante a aula.
Qual é a questão?
Um “Bom dia!” político ainda é um “Bom dia!”?
Ainda é apenas para abrir e encerrar um ato comunicativo? Se eu digo “Bom dia a
todas, a todos e a todes!”, na verdade, estou a dizer “Bom dia, sou
progressista!”, “Bom dia, quero dizer que independentemente de minhas posições
políticas, se à esquerda, se à direita, sem polarização, eu respeito a todas,
todos e todes seja pela manhã, pela tarde ou pela noite!” Para mim, essa é predominantemente
uma expressão da função emotiva, aquela que diz sobre o falante, a parte do “Bom
dia!” foi só para disfarçar a necessidade de se autoafirmar, ou de se proteger,
politicamente. Estou quase convencido que o “Bom dia!” está desaparecendo da
comunicação social, incrível. A insegurança que antes tínhamos sobre ter aberto
bem ou não o canal de comunicação se transformou em outras inseguranças: “será
que sabem quem sou eu?”, “será que vão me cancelar?” etc. Aquela tentativa de
ser agradável ou de gracejar converteu-se em provocação, isso também é fato. Pode
agir até como uma senha! Não dizem que os maçons emitem sinais secretos para se
identificarem entre si? Se bem que um “a todas, todos e todes” não me parece
uma senha tão secreta ou discreta, mas é um distintivo sociopolítico.
É isso, um distintivo sociopolítico, função
emotiva é a nova fática!
Sinto muito, mas não vou dizer que tenho
saudades do tempo em que o “Bom dia!” era só um lindo, simples e sincero “Bom dia!”
– primeiro porque nunca foi, segundo porque eu continuo com o meu “Bôômm
diiiiiaaaa, bom dia, bom diaa!!!” e ninguém me acha desrespeitoso por isso, me
acham velho, ah isso acham, e, vira e mexe, me sondam para descobrir meus
posicionamentos políticos, o que é um bom motivo para estabelecer um ato
comunicativo também.