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segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Bom dia, boa tarde, boa noite

 

“Bom dia!” não funciona mais na comunicação social, grupal. Repararam? Precisa ser “Bom dia a todos!”, “Bom dia a todos e todas!” “Bom dia a todas e todos!” “Bom dia a todas, todos e todes!” O simples “Bom dia!” deixou de exercer a função fática – função da linguagem que serve para abrir, prolongar e fechar um canal de comunicação, disse Roman Jakobson. Tem mais, se se tratar de uma publicação permanente em uma rede social, o “bom dia!” deverá ser seguido por “boa tarde!” e por “boa noite!”.

Sou professor e já trabalhei em salas de aula com mais de setenta alunos, não raro, com cem mais ou menos. Diante de um número grande de pessoas, algo acontece: o professor, o palestrante, o apresentador, o artista etc. perdem a certeza de que funcionaram o “olá!”, o “bom dia!” e afins. Foi suficiente? – ele pensa. É muita gente! Todos me ouviram? Todos se sentiram convocados a me ouvir? A atenção de todos foi requisitada? O canal de comunicação foi aberto de modo simpático?

Os professores tentam resolver essa insegurança:

— Bom dia, garotada!

— Bom dia, pessoas!

— Bom dia, gente!

— Bom dia, pessoal!

— Bom dia, galera!

— Bom dia, meu povo!

— Olá, olá, olá! Bom dia! Bom dia! Galera!!! Bom dia!!!

Eu tentei de tudo. Não somente para chamar a atenção do público, mas, principalmente, para eu ter a certeza de que o processo comunicativo tinha se iniciado. Acabei ficando com o “Bom dia! Bom dia! Bom dia!” Em que o primeiro “bom dia!” é mais esticado, “Bôômm diiiiiaaaa!”; o segundo e o terceiro são rápidos. Fica assim:

— Bôômm diiiiiaaaa, bom dia, bom diaa!!!

Até chegar a essa fórmula, eu tentei muitas. Tentei o bordão presidencial iniciado por José Sarney, usado posteriormente também por FHC e Dilma: “Brasileiros e brasileiras, bom diaaa!”. Experimentei algum gracejo como “Crianças brasileiras do Brasil, bom diaaa!” Quando eu era aluno de cursinho, um professor usava “pessoas”. Achei inusitado na época, ninguém ainda tinha me chamado de pessoa. Propus essa também, mas sem muito sucesso. Foi indo assim, até que me satisfiz em repetir por três vezes o cumprimento. Três é um número bom, diria algum cabalista: “bom dia” é igual a 8, repetido 3 vezes é igual a 24 que dá 6 – o número da comunidade, da família, das relações humanas harmoniosas etc. Está rindo? Se você tivesse que se comunicar diariamente com uma multidão, você também apelaria! Preciso lembrar que Pedro negou Cristo por três vezes. Como fica o bom número 3 nesse caso? Repetir por três vezes uma sentença parece mais um fenômeno linguístico de ênfase do que uma mágica cabalística. Minha mãe, e a sua também, repete uma sentença por duas vezes e diz:

— Se eu tiver que falar mais uma vez...

Três é um número bom, nem Jakobson nem Saussure pensaram nisso! Mas eu escolhi essa fórmula porque me recuso à redundância do “a todos”. “Bom dia a todos!” Se se diz “bom dia!” é para todos que ouvirem, caso contrário, eu me dirigiria especialmente a uma pessoa ou outra. Eu sei, eu sei, que é ênfase, que o “a todos” é ênfase, mas também sei que, a quase todos os desvios, se desculpam pela “ênfase”. Não gosto! Três vezes “bom dia!” é ênfase, isso, sim! Se a mãe usa a ameaça da terceira, é porque funciona.

Voltemos aos penduricalhos políticos!

Quem popularizou isso no Brasil, você querendo ou não foi o José Sarney. Lá pelos idos de 1985. Duvido que fosse pela inclusão, era mais para macaquear o “Ladies and Gentlemen”. Em 2010, acadêmicos, ativistas e políticos estadunidenses mandavam um “Good morning, people of all genders!”. A França e a Espanha, já na década de 80, ensaiavam o “bom dia!” inclusivo, político. No Brasil, em 2023, o ministro Alexandre Padilha iniciou o discurso de posse com “Boa tarde a todas, a todos e a todes!” Perto de 1997, eu fazia meu segundo curso universitário, filosofia, alguns professores nos comunicaram que, malgrado deles, a universidade passava a exigir a inclusão do gênero feminino nos discursos de sala de aula, deviam se referir a alunos e alunas durante a aula.

Qual é a questão?

Um “Bom dia!” político ainda é um “Bom dia!”? Ainda é apenas para abrir e encerrar um ato comunicativo? Se eu digo “Bom dia a todas, a todos e a todes!”, na verdade, estou a dizer “Bom dia, sou progressista!”, “Bom dia, quero dizer que independentemente de minhas posições políticas, se à esquerda, se à direita, sem polarização, eu respeito a todas, todos e todes seja pela manhã, pela tarde ou pela noite!” Para mim, essa é predominantemente uma expressão da função emotiva, aquela que diz sobre o falante, a parte do “Bom dia!” foi só para disfarçar a necessidade de se autoafirmar, ou de se proteger, politicamente. Estou quase convencido que o “Bom dia!” está desaparecendo da comunicação social, incrível. A insegurança que antes tínhamos sobre ter aberto bem ou não o canal de comunicação se transformou em outras inseguranças: “será que sabem quem sou eu?”, “será que vão me cancelar?” etc. Aquela tentativa de ser agradável ou de gracejar converteu-se em provocação, isso também é fato. Pode agir até como uma senha! Não dizem que os maçons emitem sinais secretos para se identificarem entre si? Se bem que um “a todas, todos e todes” não me parece uma senha tão secreta ou discreta, mas é um distintivo sociopolítico.

É isso, um distintivo sociopolítico, função emotiva é a nova fática!

Sinto muito, mas não vou dizer que tenho saudades do tempo em que o “Bom dia!” era só um lindo, simples e sincero “Bom dia!” – primeiro porque nunca foi, segundo porque eu continuo com o meu “Bôômm diiiiiaaaa, bom dia, bom diaa!!!” e ninguém me acha desrespeitoso por isso, me acham velho, ah isso acham, e, vira e mexe, me sondam para descobrir meus posicionamentos políticos, o que é um bom motivo para estabelecer um ato comunicativo também.

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